14 de fev de 2018


Não posso me afligir ao pensar que me faltam coisas que fazem parte da trajetória normal de um indivíduo: emprego, casa, jardim, esposa e filho. 



A existência desses indivíduos transcorre de maneira sempre igual. Já a minha vida, ao contrário, é intelectual, e seu desenvolvimento regular e atividade constante têm de produzir frutos nos poucos anos de pleno poder espiritual e de sua livre utilização, e, assim, por séculos enriquecer a humanidade. Minha vida pessoal é tão-somente a base para a intelectual, a "conditio sine qua non", ou seja, algo totalmente secundário. 

Quanto mais estreita for essa base, tanto mais segura; e se realizar o que deve com relação à minha vida intelectual, terá atingido o eu fim. O instinto, que é próprio a todos aqueles que têm objetivos intelectuais, também se tornou um guia para mim, de forma que deixei de lado os interesses pessoais e tudo concentrei em minha existência espiritual. Por isso também o fato de a trajetória da minha vida parecer desconexa e destituída de plano não pode me surpreender: ela se assemelha ao acompanhamento na harmonia, que igualmente não pode conter em si nexo algum, visto que serve apenas de fundamento a voz principal, na qual se encontra o nexo. 

As coisas de que necessariamente sou privado em minha vida pessoal me são compensadas de outra maneira, ao longo da vida, pelo pleno gozo do meu espírito e empenho em favor de sua orientação inata.


— Arthur Schopenhauer, in Eis Heuatón - Arthur Schopenhauer. Editora Martins Fontes, pág. 03.

Obra de Quint Buchholz



Fonte: Literatus

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