14 de mai de 2017

Mães, babás, amas de leite: escravidão e maternidade


A historiadora Tania Quintaneiro informa que uma vez o rebento chegado, a maternidade não parecia interessar muito às classes dominantes brasileiras. O principal papel das senhoras se reduzia a parir um grande número de filhos e, em seguida, entregá-los para que uma ama de bom leite os amamentasse e criasse e, “assim que as crianças se tornam incomodas ao conforto da senhora, são despachadas para a escola” contaram Kidder e Fletcher. Fragilidade psicológica das mães muito jovens? Saúde precária da mãe, depressão pós-parto, desnutrição? Faltam respostas.


As amas negras, ao contrário, eram tidas como notáveis no cuidado dos pequenos além de possuidoras de físico robusto e rico leite. Elas levavam nos braços e amamentavam seus pequenos, e mesmo os filhos dos senhores eram “por vezes carregados dessa maneira, e é extraordinário ver como se encarinham rapidamente das pretas que parecem ter uma verdadeira aptidão para cuidar das crianças”, registrou James Wetherell, morador de Salvador entre 1842 a 1857. Ele não parecia perceber a competição que havia entre bebes negros e brancos, pelo acesso aos alimentos. Reduzidas, muitas vezes, a anúncios de compra e venda nos jornais, as amas eram uma substituta afetuosa, ainda que inferiorizada, responsabilizada pela educação de crianças brancas, dos seus filhos e dos bastardos de seu senhor. As sessões de anúncios nos grandes periódicos da capital do Império, como o Jornal do Commércio, em 14 de abril de 1835, exibiam propostas:

“Compra-se uma boa ama de leite parda, do primeiro ou segundo parto, mucama recolhida, que saiba coser e engomar perfeitamente, sem vícios, nem manchas nem moléstias. ”

Em famílias de poucas posses não era incomum que as mulheres livres se oferecessem para amamentar ou “vender” seu leite. Era uma forma de aumentar a renda, como se vê no anúncio do mesmo Jornal do Commércio de 04 de setembro de 1864: “Uma família moradora num arrabalde desta cidade, tendo uma parda com muito e bom leite, toma uma criança para criar”. Ou, nesse de 1º. de março de 1857: “Uma senhora branca, parida há vinte e tantos dias, com muito e bom leite, recebe uma criança para criar, na Rua da Carioca 103”. Mulheres pobres, forras ou brancas presas às suas obrigações domésticas, se ofereciam para amamentar ou criar crianças em domicílio.

Na metade do século XIX, a opinião dos viajantes estrangeiros sobre tal prática era divergente. Houve quem, como o escritor francês Charles Expilly, destacasse o fato de que tais cativas recebiam roupas novas, alimentação suplementar e mesmo ostentavam “luxo insolente”, pois exprimiam a “prosperidade da casa”. Ou o viajante W. Heine que sublinhava que tais amas sofriam em amamentar seus filhos e os filhos de outrem. Dramas não faltaram. Amas sob cujos cuidados perdiam-se crianças, eram acusadas, julgadas e muitas vezes presas e condenadas.

Por vezes, os menores tinham cada qual a sua babá, enquanto os mais crescidos contavam com amas secas, mas, também, com a companhia de “crias”, ou seja, crianças, filhos de escravos da casa e outros criados domésticos – diz Quintaneiro. Mini acompanhantes também podiam ser alugados como se vê num anúncio do mesmo Jornal do Commércio, em 21 de janeiro de 1835: “precisa-se de uma negrinha para andar com uma criança, que esta seja carinhosa, e não exceda o seu aluguel de 6$rs. Mensais”.

No final do século, a situação mudou. Médicos condenavam a presença da escrava no ambiente do lar, fustigando a vaidade e a futilidade das mães que não queriam estragar os seios, aleitando. Em 1867, surgiu na Europa a primeira fórmula industrializada de amamentação de recém-nascidos. A novidade logo bateu aqui. Discutia-se também o emprego de leite de jumenta ou de vaca, fervido ou não, servido em “vasos” para nutrir o bebe. A ama de leite passou a ser indesejada e signo de atraso aos olhos dos estudos “científicos”.

Os filhos ilegítimos recebiam, no mais das vezes, o mesmo tratamento afetivo que os legítimos. E não raras vezes, os filhos de uma ama-de-leite a quem se alforriara, eram criticados por se comportar como filhos mimados, sentindo-se ofendidos se não recebiam as mesmas atenções, como, por exemplo, passear de carruagem com suas senhoras. Muitos viajantes os viram metidos na privacidade dos cômodos internos, exigentes de carinho e atenção.

As crianças brasileiras eram consideradas atrevidas por observadores europeus. Maria Graham relatou uma conversa com certa senhora, num baile onde se agitavam crianças pequenas. Ao adverti-la de que na Inglaterra tal comportamento seria considerado “maléfico para elas, sob todos os pontos de vista”, a interlocutora perguntou: e o que faziam os ingleses com as suas? Resposta britânica: estariam na cama, dormindo, ou com suas amas e governantas. Contra resposta: os ingleses seriam felizes neste ponto; mas, no Brasil não havia tais pessoas e as crianças ficavam entregues ao cuidado e exemplo dos escravos. Depois era preciso separar-se dos próprios filhos para educá-los longe dos cativos!


Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, Editora LeYa, 2016. 


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Fonte: História Hoje
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