1 de ago de 2015

Impactos da Primeira Guerra Mundial persistem ainda hoje

Com a morte dos últimos veteranos, a Primeira Guerra Mundial, que começou há cem anos, sai da memória e entra para a história. Sua repercussão, porém, se mantém em termos de terras e geografia, de povos e nações e de causas e consequências da guerra moderna. 

O memorial em Tyne Cot, perto de Ypres e do lamacento campo de batalha de Passchendaele, é o maior cemitério da Comunidade Britânica no mundo. Quase 12 mil soldados estão enterrados aqui ­8.400 deles identificados apenas como "Um Soldado da Grande Guerra, Desconhecido Até Para Deus". 

Apesar da imensidão do cemitério, os soldados representam somente uma porção ínfima dos 8,5 milhões ou mais de mortos de ambos os lados, além dos 20 milhões que ficaram gravemente feridos. Na primeira guerra total na Europa, chamada de a Grande Guerra até que ocorreu a segunda, 7 milhões de civis também morreram. 

Em geral, diz­-se que a Primeira Guerra Mundial começou em Sarajevo em 28 de junho de 1914, com o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e de sua mulher, Sofia, perpetrado por um jovem nacionalista que sonhava com uma Sérvia mais extensa. Nos quatro anos e meio seguintes, a guerra se disseminou pela Europa, pelo Oriente Médio e pela Ásia, remodelando o mundo.

A guerra destruiu reis, imperadores, czares e sultões; demoliu impérios; introduziu armas químicas, tanques e bombardeios aéreos; colocou milhões de mulheres na força de trabalho; deu independência a nações como Ucrânia e Polônia; criou novas nações no Oriente Médio, muitas vezes com fronteiras arbitrárias; e impulsionou grandes mudanças culturais, incluindo novos conceitos de psicologia, como neurose de guerra e estresse pós­traumático. 

Ela também foi o passo inicial dos Estados Unidos para se tornar uma potência global. O presidente Woodrow Wilson acabou fracassando em suas ambições por uma nova ordem mundial e uma Liga das Nações confiável, tendo semeado muita confusão com sua insistência em um armistício e seu apoio a uma "autodeterminação" indefinida. Além disso, a rápida retirada americana da Europa ajudou a abrir caminho para a Segunda Guerra Mundial. 

Historiadores ainda discordam sobre a responsabilidade pela guerra. Alguns continuam culpando a Alemanha e outros citam um conjunto de rivalidades, alianças e ansiedades, impulsionado por preocupações com a crescente fragilidade dos impérios Austro­Húngaro e Otomano e o fortalecimento crescente da Alemanha e da Rússia. 

Para a França, o conflito foi uma reação necessária à invasão, sendo considerada uma "boa guerra", ao passo que a Segunda Guerra Mundial é vista como um erro embaraçoso. Para a Alemanha, a Primeira Guerra foi uma derrota quase incompreensível, formando a base para revoluções, revanchismo, fascismo e genocídio. O curioso, diz o historiador de guerra Max Hastings, é que a Alemanha poderia ter dominado economicamente a Europa em 20 anos se não tivesse entrado em guerra. "A grande ironia de 1914 é como muitos governantes na Europa superestimaram o poderio militar e subestimaram o poder econômico", opinou Hastings. 

Ainda persiste um debate sobre a real necessidade de os britânicos terem lutado. Mas a luta atraiu milhões de voluntários, até que o número de mortos extraordinariamente alto finalmente levou à imposição do recrutamento, em 1916. A Batalha do Somme ­em cujo primeiro dia 20 mil soldados britânicos morreram, 40 mil ficaram feridos e 60% dos oficiais foram mortos­ marcou a conscientização britânica e se tornou sinônimo de carnificina insensata. Este ano também marca o 75° aniversário do início da Segunda Guerra Mundial e o 25° aniversário da queda do Muro de Berlim. O final da Guerra Fria foi, de certa forma, um retorno ao final da Primeira Guerra Mundial, restituindo a soberania aos países do Leste Europeu, razão pela qual eles estão tão dispostos a defendê­-la atualmente.

Analistas questionam se a era da supremacia americana e europeia está chegando ao fim, diante da ascensão da China e da volta do nacionalismo tradicional. 

Inevitavelmente, analogias são traçadas. Alguns analistas comparam a Alemanha do pós-­guerra com a Rússia atual, argumentando que, assim como a Alemanha rejeitou a "paz cartaginesa" no final da Primeira Guerra Mundial,  hoje a Rússia rejeita o "acordo" da Guerra Fria, considerando­-o injusto, remoendo sua derrota e provocando nova agressividade. 

Alguns questionam se as lições de 1914 ou de 1939 são mais válidas na atualidade. Será que levamos em conta apenas as lições de 1939, quando a contenção era onerosa, e ignoramos as lições de 1914, quando ela poderia ter evitado a guerra? Há quem veja uma luta contínua entre a Alemanha e a Rússia pelo domínio da Europa, uma luta que marcou ambas as guerras mundiais e se mantém até hoje, e não só na Ucrânia, onde há um século o povo lutou em ambos os lados. 

Outros apontam para o Oriente Médio, onde a guerra civil na Síria e o avanço de militantes islâmicos na direção de Bagdá estão desfazendo as fronteiras coloniais estabelecidas no acordo Sykes­Picot pelos franceses e britânicos, com a concordância russa, em 1916, na metade da guerra, quando o Império Otomano estava se esfacelando. O massacre em Gallipoli ajudou a moldar a identidade nacional do Estado herdeiro, a Turquia atual. 

Até mesmo a Declaração de Balfour, que deu o apoio britânico a um Estado judaico na Palestina, foi assinada durante a guerra, em novembro de 1917. Com o interesse renovado por ocasião do centenário do conflito, pessoas enlutadas, parentes, turistas e grupos de estudantes visitam os campos de batalha preservados de Ypres. Elas caminham entre as lápides cinzentas de Tyne Cot e depositam papoulas vermelhas sobre a terra. A papoula é um dos emblemas da Grande Guerra e ganhou fama no poema de 1915 de um médico militar canadense, o tenente­ coronel John McCrae: "Nos campos de Flandres, as papoulas brotam entre as fileiras de cruzes que marcam nosso lugar". 

O historiador G. M. Trevelyan escreveu em sua autobiografia: "Os mortos se foram daqui. Seu lugar não os reconhece mais e agora é nosso. No passado, porém, eles foram reais como nós somos. Amanhã, seremos sombras como eles".

Via - Folha de São Paulo 

STEVEN ERLANGER DO "NEW YORK TIMES", EM ZONNEBEKE, BÉLGICA 

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