4 de fev de 2015

A raiz do medo

Você já teve a sensação de que a vida seria bem mais fácil sem os medos e as culpas que nos atormentam? Acredite: você não está sozinho. 

A moral ocidental, ou seja, esse código de regras que nos dá a noção do que é certo e errado, foi construída sob o grosso manto do cristianismo, com toda sua carga de pecados, medo e culpa. E essa moral continua nos assombrando até hoje, mesmo nestes dias em que se fala tão pouco em pecado fora dos templos religiosos.


O Pecado e o Medo – A culpabilização no Ocidente (séculos 13 a 18), obra de 1990 recém-lançada no Brasil, procura mostrar como essa moral foi construída. No livro, o historiador francês Jean Delumeau, um dos mais importantes do nosso tempo, investiga o medo incutido no Ocidente pela Igreja cristã (tanto a católica quanto a protestante) e, para isso, ele vasculhou 600 anos da história ocidental. E que época ele escolheu! O período compreendido entre os séculos 13 e 18 são os anos da Inquisição, da Reforma e da Contra-Reforma, das guerras religiosas, da caça às bruxas e outras atrocidades. Foi nessa época que se cristalizaram os sermões ameaçadores de padres e pastores contra os fiéis, exortando-os a examinarem minuciosamente suas consciências para expiarem seus pecados, sob o risco da condenação eterna.

Mas Delumeau não está atrás de culpados. Católico confesso, o historiador deixa claro desde o princípio que sua idéia não é acusar ou denunciar, mas revelar, retratar e, com isso, desconstruir a culpa e o medo do pecado. Em última instância, sua proposta é resgatar a mensagem cristã original, sem as interpretações de que ela foi vítima ao longo da história. Boa parte do trabalho de Delumeau é rastrear os medos e dissecá-los, atribuindo a cada pensador cristão (Santo Tomás de Aquino, Santo Agostinho, entre outros) sua responsabilidade pelo resultado final.

E o período retratado presta-se bem a esse exame. Nessa época, o homem passou a ser considerado uma criatura desprezível, indigna, sujeita a todo tipo de corrupções. O pecado não morava ao lado, mas dentro de cada um, espreitando e esperando o momento mais propício para dar o bote e condenar seu hóspede ao inferno. O medo, portanto, era de si mesmo. Segundo Delumeau, nunca houve uma civilização que desse tanta importância para a culpa e o pecado como a ocidental, naquele período.

Mas não espere do livro um passeio indolor pela história medieval e moderna. Delumeau é um autor erudito e não se preocupou em oferecer uma leitura escorreita, pelo contrário. Abusando de seu vasto conhecimento, ele construiu raciocínios complexos, repletos de conceitos abstratos. Esse modo de escrever torna o livro denso e muitas vezes difícil de ler. Mas nem tudo vem para dificultar: pelo menos as 1 050 páginas estão divididas em dois volumes, para facilitar o manuseio do tijolão.

Fonte: Guia do estudante
Por Rodrigo Vergara
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