19 de dez de 2014

Nosso verbo ancestral


José Alminto lembra que, nos anos 1990, Antônio Cunha já pensava em produzir a obra para proteger as fichas. (Imagem: Divulgação)

Fruto de 35 anos de trabalho, Vocabulário reúne milhares de palavras do português arcaico.

Arquiteto de formação, Antônio Geraldo da Cunha já colaborava há 24 anos para a Revista Brasileira de Filologia e editava obras sobre o assunto há mais de uma década, quando, em 1979, ingressou no Setor de Filologia da Fundação Casa de Rui Barbosa. Sua missão era coordenar e desenvolver o Vocabulário histórico-cronológico do português medieval (VPM). Depois de 35 anos e quase 170 mil vocábulos reunidos, a obra foi lançada em outubro passado. É a primeira vez que estudiosos terão acesso a um compilado – feito no Brasil – de palavras seculares, seu uso em frases de época e suas correspondentes atuais.

Antes mesmo de a Casa de Rui Barbosa assumir o projeto, Antônio Geraldo da Cunha já produzia as fichas de verbetes – parecidas com as de arquivo de bibliotecas – que norteariam o trabalho dos 51 profissionais que passaram pelo projeto do VPM ao longo dos anos. “Cada ficha corresponde a uma palavra com abonação – trecho onde foi encontrada a palavra secular – e uma das preocupações era – e é – preservá-las e protegê-las”, explica José Alminto, diretor do Centro de Pesquisa da Casa.

Há vocábulos dos séculos XIII, XIV e XV, e a ideia é contribuir para o entendimento da evolução histórica do léxico, estabelecendo elos da cadeia evolutiva que, a partir do latim vulgar, chegou até o português atual. Para tanto, “tínhamos fontes transcritas em vários níveis, pegávamos publicações antigas e transcrições que guardassem os vestígios do formato antigo”, conta José Alminto. O Vocabulário ensina, por exemplo, que o verbo “desagradecer” (do século XIV) foi sinônimo de desagradar, como na frase catalogada em um códice galego do século XIV: “desgradeceu lle muyto por que esto fora feyto sen sseu outorgamento”. Sílvio de Almeida Toledo Neto, professor de Filologia da USP, enaltece a iniciativa: “A contribuição é muito grande, pois traz a público os resultados de uma pesquisa ampla e meticulosa, com base em edições fidedignas de textos da época. Será de consulta indispensável a todos os pesquisadores dos séculos abarcados. São raras as publicações que reúnem tanta informação, criteriosamente preparada, sobre o vocabulário desse período”.

Até a obra de dois volumes ficar pronta, recebeu financiamentos de diferentes órgãos e ganhou versões em outras plataformas, como um CD-Rom lançado em 2000. Os mil exemplares impressos agora serão distribuídos gratuitamente para institutos brasileiros e internacionais de referência no assunto. A intenção é disponibilizar na internet o banco de dados que gerou a obra. Toda a equipe envolvida faz questão de homenagear o idealizador do projeto, que não viveu para ver publicado seu Vocabulário. Antônio Geraldo da Cunha faleceu em 1999, na fase de informatização das fichas.

Fonte: Guia do Estudante
Por Angélica Fontella
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