6 de dez de 2014

A morte sem fim de Jango


Depois de 31 anos da morte do ex-presidente no exílio, uma nova série de fatos renova as suspeitas de que ele teria sido vítima de uma conspiração militar. Documentos inéditos aos quais História teve acesso mostram como Jango era vigiado durante a ditadura. Além disso, as afirmações de que ele foi envenenado pela Operação Condor, feitas por um ex-agente do serviço secreto uruguaio, reabrem as discussões sobre a causa mortis registrada no atestado de óbito: “enfermedad”.

Aquele abafado domingo, 5 de dezembro de 1976, foi exaustivo para João Belchior Marques Goulart. Ele e a mulher, Maria Thereza, saíram no início da manhã de sua fazenda, a El Rincón, em Tacuarembó, no Uruguai, com destino a outra propriedade da família, a estância La Villa, em Mercedes, na Argentina. A viagem, de 600 quilômetros, começou a bordo do avião Cessna do casal. A primeira parada foi Bella Unión, na fronteira com a Argentina. De lá, eles cruzaram o rio Uruguai até Monte Caseros numa lancha de aluguel. Chegaram à cidade por volta das 10h30 e foram de carro, um Opel alemão, até Paso de los Libres. João dirigia, mas não parecia bem. “Olhei para ele e o achei estranho, como se passasse mal”, diz Maria Thereza. “Perguntei se queria que eu dirigisse um pouco, mas ele disse: ‘Não, minha filha, estou bem’.” Com o casal estavam Roberto Ulrich, que trabalhava para a família, e Alfredo, um adolescente engraxate que Goulart “adotou”. Todos almoçaram no hotel Alejandro I, lá pelas 13h. João Goulart, que havia reduzido o álcool por ordens médicas, bebeu água com gás e comeu carne. Às 16h, finalmente, chegaram a La Villa, sem imaginar que aquele seria o último dia de Jango, ex-presidente do Brasil deposto pelo Golpe de 1964 e que, desde então, vivia no exílio.

Naquela noite, Maria Thereza foi para o quarto mais cedo que o marido. João Goulart preferiu ficar conversando com o capataz Júlio Passos na ampla varanda da casa de quatro quartos e um banheiro, sede de uma fazenda de gado de 900 hectares. João tomou uma sopa, comeu um pouco de churrasco de ovelha e bebeu uma xícara de chá. Como de costume, é provável que tenha tomado seu comprimido para o coração. À 1 da manhã, foi dormir. O sono veio rápido. Maria Thereza, ao contrário, não conseguia adormecer por causa do barulho do vento. Ficou lendo uma revista. Apagou a luz e começou a ouvir um ronco estranho. Levantou, acendeu a luz e viu o marido respirando de maneira esquisita. “Comecei a gritar ‘Jango! Jango!’, mas ele já não respondia”, lembra. Júlio ouviu os gritos e, pensando que alguém havia invadido a casa, entrou no quarto e viu o patrão com as mãos no peito. Às 2h45, aos 57 anos, Jango estava morto.

Ulrich foi buscar em Corrientes, a 15 quilômetros, o médico argentino Ricardo Rafael Ferrari, recomendado por um fazendeiro conhecido da região. O clínico geral examinou o corpo em busca de sinais de violência e secreções na boca e nariz. Perguntou se a vítima tinha problema cardíaco, leu em um vidro a fórmula de um remédio para o coração e assinou o atestado de óbito: “Causa mortis: enfermedad”. Depois, seguiu para a delegacia local e relatou o fato para, segundo ele próprio contou a deputados brasileiros em 2000, evitar “a responsabilidade de ser o único a atestar essa morte”.

Amigos do ex-presidente ligaram de madrugada para o superintendente regional da Polícia Federal, coronel Solon D’Ávila, em Porto Alegre. Pediam autorização para que Jango fosse enterrado em sua cidade natal, São Borja, no Rio Grande do Sul, segundo o livro Segredos à Direita e à Esquerda na Ditadura Militar, do jornalista José Mitchell. O vice-presidente Adalberto Pereira dos Santos autorizou que o cadáver entrasse por terra. O ministro do Exército, Sylvio Frota, porém, determinou que o corpo viesse de avião, com medo de manifestações populares. Anos depois, em seu livro Ideais Traídos, Frota disse que a ordem de proibir a entrada do corpo por terra partira do presidente Ernesto Geisel – embora este tenha dito no livro A Ditadura Encurralada que permitiu “que o corpo entrasse por Uruguaiana”. Ao fim do imbróglio político (que mais tarde ocasionou até mesmo um Inquérito Policial Militar), o corpo de Jango entrou no Brasil por terra. Mais de 30 mil pessoas tiveram que esperar a chegada dos dois filhos do casal, João Vicente e Denize, que vinham de Londres. A filha ainda teve tempo de estender sobre o caixão uma faixa com uma única palavra em vermelho: “Anistia”.

AS SUSPEITAS

Na época, apesar de saber que Jango era encarado como inimigo pelos regimes militares, a família não imaginava outra razão para a morte que não problemas de saúde. Em 1969, ele infartou no Uruguai, foi submetido a um cateterismo e passou a tomar remédios para o coração. Em setembro de 1976, esteve na Europa para conhecer o neto mais velho, Christopher, e se consultara com o professor Fremont (não há registro do nome completo do médico), do Instituto de Cardiologia de Lyon, na França. Tomava diariamente um remédio sublingual – vasodilatadores que variavam entre Isordil ou Carangor, comprados em farmácias comuns – e outro cujo nome ninguém da família se recorda, que era encomendado em farmácias da França e que vinha por correio para Buenos Aires.

Goulart tinha ordens médicas para emagrecer, parar de fumar e de beber. Trocou o uísque quase diário por doses moderadas de vinho e fez uma dieta na qual evitava pão e massa. Mas não ficava livre de outros excessos. “No café-da-manhã, comia um bife com ovo frito todos os dias”, lembra a viúva. “Ele comprou o livro da dieta do Dr. Atkins. Anos depois, eu soube que aquele regime é uma bomba para quem tem colesterol alto”, diz, referindo-se à dieta à base de proteínas e gorduras criada pelo médico americano Robert Atkins. Jango perdeu, segundo ele próprio escreveu para o filho, 11 quilos em três meses, mas não abandonou os dois maços de cigarro por dia. Fumava Nevada no Uruguai, Jockey Club na Argentina e Marlboro na Europa.

O assunto estava sepultado até 1982, quando a Justiça argentina pediu a exumação do corpo após uma denúncia de que Jango teria sido morto. A acusação foi feita por Enrique Foch Díaz, que conhecera o ex-presidente quando vendeu a ele uma fazenda de gado. Díaz, que escreveu depois o livro João Goulart: El Crimen Perfecto, acusava Maria Thereza, o ex-governador de Brasília Ivo Magalhães (antigo sócio de Jango) e o ex-deputado pernambucano Cláudio Braga (que administrava o escritório argentino do ex-presidente) de participação no crime. Para Díaz, os três queriam ficar com os bens de Jango, que teria sido envenenado com sarin, colocado em seus medicamentos.

O juiz responsável pelo caso o arquivou por falta de provas. Díaz foi processado por difamação por Braga e condenado a sete meses de prisão em 2002. Suas teses foram descartadas. Ele não cumpriu a pena porque tinha mais de 80 anos. Seu livro foi retirado das lojas. “As denúncias tinham o único interesse de vender a publicação”, diz João Vicente. Por isso, a família não autorizou a exumação. Segundo o filho, não havia condições políticas: “Entendemos que seria uma aventura fazer uma investigação desse tipo sem termos o apoio necessário dos governos envolvidos”.

De qualquer forma, a denúncia de Díaz (que morreu em 2005) serviu para levantar a lebre. Uma Comissão Externa da Câmara Federal foi aberta em 2000 para apurar os fatos a pedido do deputado Miro Teixeira, do PDT (partido fundado por Leonel Brizola, cunhado de Jango). A família acredita agora que a morte chegou a Jango no formato de um comprimido. “Na época, não pensava em assassinato do meu pai. Agora já não sei, quero saber o que realmente aconteceu”, fala Denize. “Hoje, creio que meu pai foi assassinado por um grupo envolvendo o serviço secreto brasileiro [órgãos de informação como o Serviço Nacional de Inteligência, o SNI, e o Departamento de Ordem Política e Social, o Dops] em coordenação com atividades de inteligência clandestinas uruguaias e argentinas. Eu não tinha provas. Agora temos a prova viva, que é o Neira Barreiro”, acredita João Vicente.

AS EVIDÊNCIAS

Mário Neira Barreiro é um presidiário de 54 anos, detido desde 2003 na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas, no Rio Grande do Sul, por assalto a banco e tráfico de armas, crimes cometidos no Brasil. Mas, sob o codinome Tenente Tamuz, pertenceu ao grupo Gama, do serviço de inteligência uruguaio. Ele diz que, de 1973 até o dia da morte de Jango, vigiou o ex-presidente 24 horas por dia. Em depoimento gravado por João Vicente no fim de 2006, Neira disse mais: no meio dos comprimidos do frasco de remédio que vinha da França, foi colocada uma cápsula com um hipertensor que continha, em sua fórmula, potássio e um cloreto desidratado num esterilizador.

“Conseguimos colocar um comprimido naqueles remédios que eram importados, que vinham da França, e estavam com o gerente do hotel Liberty. Ele era amigo de Jango (...) e nós colocamos uma pessoa para trabalhar no hotel, que se chamava Heitor Rodríguez. O Heitor Rodríguez, que chamávamos Heitor Liberty, roubou os remédios de uma caixa que tinha uma trava, uma espécie de cofre forte do hotel. Ele pegou da gerência e deu para nós, e o doutor Carlos Milles fez a colocação de um comprimido em cada êmbolo”, disse. Milles seria um legista uruguaio que já teria outros casos de envenenamento em seu currículo e foi morto, conforme conta Neira Barreiro, como queima de arquivo.

O uruguaio afirma que o assassinato de Jango foi ordenado pelo temido delegado Sérgio Fleury, do Dops de São Paulo, numa reunião em Montevidéu. Este, por sua vez, de acordo com Neira, estaria seguindo uma ordem de Geisel. Não há prova de que Fleury tenha mandado matar Jango. Mas ele participou de reuniões em Montevidéu. “As ligações da repressão brasileira com outros países motivaram Fleury a promover vários contatos, principalmente para saber se havia brasileiros no Uruguai que interessariam aos militares brasileiros e ao Dops”, diz o jornalista Percival de Souza, autor de Autópsia do Medo, biografia de Fleury. Segundo ele, no entanto, a articulação anti-Jango era de âmbito militar.

Neira Barreiro diz ter provas de toda a trama, mas não as exibe. Entrevistado pelos jornalistas Carlos Heitor Cony e Anna Lee para o livro O Beijo da Morte, prometeu entregar gravações de conversas de Goulart, provando que o vigiava, mas forneceu endereços falsos do local onde as fitas estariam. Há contradições em seus depoimentos e entrevistas. À Comissão Externa da Câmara, declarou que o frasco importado da França havia sido trocado. Para João Vicente, disse que uma cápsula foi incluída. Em uma entrevista no fim de janeiro para o jornal Folha de S.Paulo, ele afirmou que vários comprimidos foram misturados a diversos frascos.

Apesar da desconfiança, os detalhes do cotidiano de Jango, descritos por ele, espantam a família. Barreiro, por exemplo, sabia a data da última carta enviada pelo político ao filho, 9 de novembro de 1976, e que no texto o ex-presidente comentava o preço do uísque. “Ele sabia de toda a nossa vida, dos nomes dos empregados, da rotina, de tudo. Isso me deixou com dúvidas sobre como meu marido morreu”, diz Maria Thereza. “Ele também cita os números dos telefones da nossa fazenda em Maldonado e da casa de Montevidéu, sabe de cor. Nem eu lembrava isso. Descreve o encontro do meu pai com os embaixadores da Argentina e da Líbia”, diz João Vicente.

Outro fato, com provas: Jango era realmente vigiado. Fotos que estavam nos arquivos do antigo SNI foram entregues a João Vicente em 2006 pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff – em 2005, o presidente Lula assinou o decreto 5584/05, que autoriza a liberação de documentos contendo informações de investigações feitas entre 1964 e 1985 pelo SNI, pela Comissão Geral de Investigações e pela Secretaria Geral do Conselho de Segurança Nacional. As fotos são parte de mais de 7 mil documentos até então secretos e mostram Goulart festejando seus 56 anos, em 1975, com amigos. Todos numerados e identificados, provando que o aparato de inteligência brasileiro o vigiava.

Entre os novos documentos há relatórios detalhados, que reproduzem a rotina e diálogos de Jango. “Até agora, só analisamos cerca de um quinto da documentação entregue. Mas já há indícios que apontam para o assassinato do ex-presidente”, diz o historiador Oswaldo Munteal Filho, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), responsável pela análise e catalogação do arquivo no Instituto João Goulart. “Ainda não posso revelar os documentos porque é preciso analisar tudo antes.”

AS AMEAÇAS

Além de vigiado, Goulart era ameaçado. Seu escritório em Buenos Aires foi invadido numa ação que, acredita-se, visava o seqüestro de Jango. Mas o imóvel estava vazio. A família recebia telefonemas anônimos que anunciavam que ele seria o próximo. “Eu me cansei de atender essas ligações. Uma vez ouvi de um homem: ‘Sai daí porque daqui a pouco nós vamos chegar e levar você e seus filhos. Sabe para onde? Para o fim do mundo!’ Eu não saí, a toda hora recebia ameaça”, lembra Maria Thereza. O clima de terror atingia a todos próximos a Jango. “Fui ao hotel Liberty, onde ele se hospedava em Buenos Aires, e funcionários me contaram que quando ele ia ligar o carro todos se afastavam. Tinham medo de bomba”, diz Silvio Tendler, diretor do documentário Jango, de 1984.

Na época, influentes políticos sofreram atentados, em ações atribuídas hoje à Operação Condor, acordo entre as ditaduras do Cone Sul para a troca de informações sobre inimigos do regime. “Tudo faz crer que ele era também alvo da Condor, embora não conheça nenhum documento que fale no nome dele. Quando estive com Goulart em Buenos Aires e Punta del Este, em 1975, existia o receio de que ele pudesse ser assassinado. Mas, naquele tempo, não se conhecia exatamente o que era essa operação”, diz o cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, autor de O Governo João Goulart.

Antes da morte do marido, Maria Thereza foi detida diversas vezes. Em 1973, João Vicente ficou três dias preso num quartel uruguaio, com 32 colegas do Liceu Departamental de Maldonado, todos suspeitos de integrar o movimento estudantil. O cerco parecia se fechar. Um ano antes da morte de Jango, em 1975, um grupo de extrema-direita foi preso em Mar del Plata e descobriu-se um plano para seqüestrar os filhos de Jango, como noticiaram jornais argentinos. O ex-presidente resolveu, então, mandar João Vicente para Londres no fim daquele ano. Denize seguiu em meados de 1976.

O próprio Goulart pensava em se mudar para Paris, enquanto sonhava com a volta ao Brasil. Segundo a família e os documentos do SNI, estava triste e isolado. Mas a hipótese de sua volta era encarada como ameaça pela linha-dura militar. Em 10 de setembro de 1976, ao receber um radiograma no qual se falava da tentativa de Jango regressar ao Brasil, o ministro Sylvio Frota mandou uma ordem ao Departamento Geral de Investigações Especiais da Secretaria de Segurança Pública do Rio, decretando: “João Goulart deverá ser imediatamente preso e conduzido ao quartel da PM, onde ficará em rigorosa incomunicabilidade à disposição da Polícia Federal”. O jornalista José Mitchell relata em seu livro que, apenas seis dias antes de morrer, Jango tentara articular sua volta ao Brasil, na marra. Mas a morte o deteve.

Exilado no Uruguai em 1976, o ex-deputado federal Neiva Moreira relatou à Comissão da Câmara que um diplomata, cujo nome ele não deu, o havia procurado para falar sobre ameaças. “Disse-me: ‘Neiva, a situação se agravou consideravelmente. Agora há listas de matar’”, contou o político. E completou: “O presidente João Goulart estava em quarto lugar”. Neiva disse que avisou Goulart, através de um amigo comum. Na relação, o ex-presidente figurava atrás do general chileno Carlos Prats, do ex-presidente boliviano Juan Torres e do senador argentino Wilson Ferreira Aldunate. Os dois primeiros foram mortos e o terceiro fugiu para o Peru. Isabel Letelier, viúva do ex-chanceler chileno Orlando Letelier, foi outra que contou a Jango que ele estaria marcado para morrer. “Estive com ela em 1982, nos Estados Unidos. Isabel me disse que avisou várias pessoas de uma lista de condenados, inclusive a João Goulart”, lembra Silvio Tendler.

AS PERGUNTAS

Entre as afirmações feitas por Neira Barreiro que intrigam a família Goulart, uma diz respeito à autópsia: segundo o uruguaio, havia uma ordem para que o corpo de Jango não fosse examinado nas primeiras 48 horas após a morte, sob risco de o veneno usado ser descoberto. Até hoje nunca surgiu um documento comprovando essa determinação. Mas, para João Vicente, a ordem explicaria a ausência de autópsia. Na época a família não se deu conta da importância do exame.

O caixão sequer foi aberto, a não ser por breves minutos, já em São Borja, como depôs o ginecologista Odil Rubim Pereira à Câmara dos Deputados. Amigo da família, o médico foi talvez a última pessoa a ter contato com o cadáver, no velório. “Me mostraram o corpo, que, naquele momento, expelia alguns líquidos, fluidos, por meio dos orifícios oral e nasal. Fizemos um tamponamento com gazes e algodão, o que tínhamos no momento”, contou.

A ausência de autópsia também contrariava a lei. Segundo Genival Veloso de França, professor de Medicina Legal da Universidade Federal da Paraíba, uma resolução de 1941 do Conselho Federal de Medicina determina (até hoje) que toda pessoa que morra fora do hospital ou sem acompanhamento médico deve ser autopsiada. Se isso não acontecer, como foi o caso de Jango, um inquérito criminal pode ser aberto. “No Código Internacional de Causa de Morte e Doenças não existe a classificação ‘enfermidade’. Naquela época, o código já existia e essa orientação também. O certo seria, quando o corpo chegasse ao Brasil, devolver o atestado e fazer a necropsia.” Ricardo Ferrari, o médico que assinou o óbito, morreu em 2002. Foi atropelado por uma motocicleta na cidade de Mercedes.

O corpo de Jango, que não foi autopsiado, também não será exumado. Pelo menos por enquanto. “Só vou permitir a exumação quando me garantirem que os venenos podem ser detectados depois de tanto tempo”, diz João Vicente. Em 8 de novembro do ano passado, a família pediu que a Procuradoria-Geral da República investigasse o caso. Em janeiro, o procurador Antonio Fernando Souza determinou que o Ministério Público do Rio Grande do Sul apure as denúncias de Neira Barreiro.

A Comissão Externa da Câmara terminou em outubro de 2001. Sem conclusões. Agora há chance de uma nova comissão ser aberta, diz o deputado Miro Teixeira. “São circunstâncias misteriosas numa época em que houve assassinatos de pessoas relevantes no cenário político latino-americano. Mas tudo deve ser analisado com cuidado, porque esse é o tipo de história que atrai todo tipo de gente”, afirma Miro. “A morte de João Goulart é que nem a de John Kennedy: toda hora aparece um fato que justifica uma nova investigação.”

“Na época não pensava em assassinato. Agora já não sei, quero saber o que aconteceu.”

Denize Goulart, filha de Jango

“Ele sabia de toda nossa vida, da rotina. Isso me deixou com dúvidas sobre como meu marido morreu.”

Maria Thereza, viúva, sobre Neira Barreiro

“Só permito a exumação quando me garantirem que os componentes podem ser detectados.”

João Vicente, filho de João Goulart

“Conseguimos colocar um comprimido nos remédios que eram importados.”

Mário Neira Barreiro, ex-agente secreto uruguaio

“Tudo faz crer que ele era também alvo da Condor, embora não conheça documento que fale no nome dele.”

Moniz Bandeira, cientista político e biógrafo de João Goulart

Trechos da carta*

Um apertado e afetuoso abraço no herdeiro, nosso Christopher... que continua comendo e engordando... Isso é signal de ânimo e saúde

P. del Este, tudo mais caro que Londres... Cigarros, 5 pesos; um almoço, 30-40... um whiski, 12 (faz um mês, desde q cheguei, q não tenho essa despesa, pois estou em rigoroso tratamento por mim mesmo prescrito)

De 96 quilos (...), estou agora com 85. Nada de massa, de assucar e de álcool. Por enquanto vou me aguentando, c/ fome, porém espiritualmente melhor

Expectativa de grande temporada... Mta. animação... pouco dinheiro... e mais esperanças”*Foi mantida a grafia original

Por que Jango preocupava?

Mesmo há mais de dez anos no exílio, o ex-presidente era popular.

Qual o interesse do governo militar em monitorar os passos de João Goulart no exílio? “Em 1976, ele ainda era tremendamente popular. A população não esquecia sua atuação como ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, em 1953. Além disso, ele sempre seria o homem que foi deposto pela ditadura. Enquanto estivesse vivo, Jango seria um monstro que assombrava o regime”, diz o historiador Luiz Carlos Rodrigues, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 

O historiador Jorge Ferreira, da Universidade Federal Fluminense, lembra que Jango morreu apenas quatro meses depois de Juscelino Kubitschek. Em maio de 1977, seria a vez de Carlos Lacerda – dez anos antes, os três haviam organizado a Frente Ampla, que lutava pela redemocratização do país. “A primeira reunião da Operação Condor foi em outubro de 1975. Após isso, várias pessoas incômodas ao regime morreram.” Já para Marco Antonio Villa, professor de História da Universidade Federal de São Carlos, Jango era menos importante para o Brasil do que para o regime militar que se instalou no Uruguai em 1973. “Jango foi mais vigiado pela ditadura uruguaia do que pela brasileira. Ao contrário de Brizola, que ainda mantinha atividade política“, diz.
Ação de longo prazo

Um comprimido de cloreto de potássio é pouco para matar

O cloreto de potássio, veneno que supostamente teria matado Jango, não seria detectado se uma exumação fosse feita hoje. “Depois de tanto tempo, apenas uma intoxicação provocada por metais pesados, como arsênio ou chumbo, seria caracterizada”, afirma a professora de Toxicologia Alice Chasin, especialista em Toxicologia Forense. Segundo ela, sob a forma de comprimido, o suposto assassinato só teria ocorrido se Jango ingerisse muitas cápsulas do composto – e não apenas uma. “Via oral, os comprimidos gerariam uma hipertensão em alguém hipertenso. É como se ele tivesse consumido muito sal.” Segundo Alice, o sarin tampouco seria detectado numa exumação. A professora afirma que quase todos os venenos podem ser descobertos em uma autópsia ou exumação – desde que esta seja feita logo após a morte.
Ave de rapina
O que é Operação Condor

Instituída em 1975, a Operação Condor era uma aliança entre órgãos de repressão política do Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil. O objetivo inicial de troca de informações ampliou-se: a Condor passou a prender, torturar e matar os inimigos. Políticos influentes teriam sido mortos por ela. Em dezembro, um juiz italiano condenou à prisão 140 envolvidos, dos quais 13 brasileiros. Entre eles, o ex-presidente João Figueiredo.

Carlos Prats

Aliado do ex-presidente chileno Salvador Allende, Prats foi morto em setembro de 1974, em Buenos Aires. Uma bomba foi deixada em seu carro.

Hector Gutierrez Ruiz e Zelmar Michelini

O senador Michelini e o deputado Gutierrez, uruguaios exilados em Buenos Aires, foram seqüestrados e mortos em maio de 1976.

Juan José Torres

Presidente deposto da Bolívia em 1971, estava exilado na Argentina quando, em junho de 1976, foi morto a tiros a 100 km de Buenos Aires.

Orlando Letelier

Ex-chanceler do presidente chileno de esquerda Salvador Allende, estava exilado em Washington, nos Estados Unidos. Uma bomba explodiu quando estava em seu carro, com a secretária, em setembro de 1976.

Indenização americana

Família culpa CIA por financiar opositores de Jango e ajudar sua deposição.

Além do pedido de abertura de investigação da morte de Jango, sua família trava outra batalha nos tribunais: querem responsabilizar o governo dos Estados Unidos por prejuízos causados a eles pelo golpe militar de 1964 e pelos anos de exílio. O valor da indenização pretendida é de 3 bilhões de reais por danos morais e de imagem mais 496 milhões de reais por perdas materiais. A decisão de entrar com a ação surgiu em 2002, após Lincoln Gordon, embaixador americano durante o período do governo Goulart, admitir em entrevistas que a CIA, a agência de inteligência americana, havia repassado clandestinamente 5 milhões de dólares a opositores de Jango nas eleições parlamentares de 1962. A família sustenta que o apoio dos Estados Unidos foi fundamental para a deposição de Jango. O caso está agora no Superior Tribunal de Justiça (STJ). “Caso a Justiça brasileira nos negue o direito de citar o governo americano, vamos ao Tribunal de Haia”, afirma João Vicente, referindo-se à Corte Internacional de Justiça.
Saiba mais

Livro

Dossiê Brasil – As Histórias por Trás da História do Brasil, Geneton Moraes Neto, Objetiva, 1997Traz revelações, baseadas em entrevistas e relatos confidenciais, sobre a deposição e o exílio de João Goulart.

Fonte: Guia do Estudante
Por Flávia Ribeiro e Fabio Varsano
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Item Reviewed: A morte sem fim de Jango Rating: 5 Reviewed By: Carlos Silva