Golpe Militar: primeiro de abril

Entenda como um movimento de militares que não tinha comandante conseguiu derrubar o presidente em 24 horas

O presidente João Goulart, o Jango, atendeu o telefone. Era manhã de 31 de março de 1964 e ele estava no Palácio das Laranjeiras, a antiga sede do governo federal, no Rio de Janeiro. Do outro lado da linha estava o senador Arthur Virgílio, que tinha uma notícia importante: as tropas do Exército estavam se movimentando para agir contra o governo. Jango ligou para seu chefe do Gabinete Militar, o general Assis Brasil, que lhe disse que tudo estava em ordem, e que o general Olympio Mourão Filho, de Minas, estava apenas fazendo uma manobra militar. Na verdade, Mourão, um antigo tenentista, estava é marchando para o Rio para derrubar o governo.

O general começou seu movimento sozinho, mas acontece que ninguém estava disposto a sair em defesa de Jango. O presidente, que tinha sido ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, vinha radicalizando seu discurso em favor da reforma agrária. Ligado à esquerda, ele já tinha prometido reduzir o poder das empresas estrangeiras, o que irritou profundamente os maiores empresários do país. Além disso, parecia estimular a revolta dos soldados contra seus comandantes. Na noite de 30 de março, discursando para suboficiais e sargentos no Automóvel Clube do Rio, Jango apoiou os jovens que tentavam democratizar o Exército. “Não admitirei o golpe dos reacionários”, ele disse. A provocação aos generais custou caro.

A situação estava se radicalizando, e parecia que alguém, da esquerda ou da direita, daria um golpe a qualquer momento. Jango pretendia aprovar no Congresso a reeleição, para conseguir mais um mandato em 1965. O deputado Leonel Brizola, genro e aliado do presidente, dizia: “Se não dermos o golpe, eles darão contra nós”. Naquele dia 31 de março, quando Mourão saiu às ruas, Goulart recebeu um telefonema de Amaury Kruel, o general que chefiava as tropas de São Paulo e do Mato Grosso. Amaury exigia que o presidente rompesse com a esquerda. Jango respondeu: “General, eu não abandono meus amigos”. Amaury juntou-se a Mourão. Na manhã de 1º de abril, o presidente colocou cinco tanques na porta das Laranjeiras – o Rio de Janeiro já não era mais a capital, mas foi ali que a crise toda aconteceu.

Greve furada

Ao assumir o governo no lugar de Jânio Quadros, que havia renunciado em 1961, Jango colocou seus aliados nos cargos mais importantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Seu plano era sempre contar com apoio de amigos nestes setores, para evitar que um golpe acontecesse. Não funcionou. Brigado com a cúpula dos militares, Goulart tinha uma outra carta na manga: a manifestação do povo. Ele tentou apelar para isso quando o líder comunista Luiz Carlos Prestes convocou uma greve geral e uma grande passeata para o dia 1º. Só que uma coisa atrapalhou a outra. Com a greve do setor de transportes e a chuva que caiu no Rio naquele dia, só 4 mil pessoas conseguiram chegar ao protesto.

Aí o presidente partiu para uma última aposta, bem arriscada. Quem conta a história é o jornalista Elio Gaspari em seu livro A Ditadura Envergonhada. O chefe do Gabinete Civil de Jango, Darcy Ribeiro, chamou para conversar o deputado Marco Antonio Coelho, do Partido Comunista do Brasil. Ofereceu a Marco Antonio submetralhadoras para que os comunistas lutassem contra os militares e deu a ele uma lista de pessoas que deveriam ser executadas em caso de vitória da esquerda. Só que o deputado se recusou a participar do plano.

Pouco antes do meio-dia daquele 1º de abril, o ministro da Guerra de Jango, Jair Dantas Ribeiro, pediu demissão e aderiu à turma de Mourão. O presidente voou correndo para Brasília, onde o golpe avançava rápido. Nessa altura, as tropas do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e do Espírito Santo já estavam a favor da queda do governo. O novo líder dos militares, o marechal Castello Branco, estava escondido em um apartamento no Rio, e de lá usava o telefone para conquistar novos aliados. Às 20h, a certeza da vitória era tão grande que Castello já discutia a divisão do poder com seu colega, o general Arthur da Costa e Silva. Eles resolveram que Castello assumiria a presidência, e Costa e Silva ficaria com o comando do Exército. Quando o primeiro presidente da ditadura morreu, em 1967, foi Costa e Silva quem assumiu o governo.

Fuga

Enquanto isso, em Brasília, Jango percebeu que não tinha mais como se manter na presidência. Sem renunciar, pegou um avião às 23h. Foi para o Rio Grande do Sul, e de lá fugiu para o Uruguai. Antes mesmo que ele deixasse o país, o Congresso já tinha passado o poder para o presidente da casa, Ranieri Mazzilli, que depois daria o cargo para Castello Branco. A partir daí, o Brasil estava sob nova direção. O que veio depois foram 20 anos de ditadura, com cinco presidentes generais. Só em 1985 o Brasil voltaria a ter um presidente civil, o maranhense José Sarney.

A reação da esquerda

Quando começou, a ditadura prometia durar pouco. Todo mundo, de empresários a muitos dos próprios novos governantes, acreditava que, depois de um período de transição em que os ânimos fossem acalmados, os militares convocariam uma nova eleição. Quando, em 13 de dezembro de 1968, o presidente marechal Costa e Silva decretou o Ato Institucional número 5 e fechou o Congresso Nacional, viu-se que a democracia estava longe de voltar. Foi aí que os movimentos organizados de oposição tiveram que escolher: ou desapareciam ou radicalizavam e partiam para a vida clandestina e o terrorismo. Começou então uma guerra suja, em que os dois lados cometeram erros. Ao seqüestrar aviões, assaltar bancos, executar supostos inimigos e fazer atentados a bomba em lugares públicos, a esquerda revolucionária nem sempre acertou seus alvos. Por sua vez, os militares reagiram com prisões arbitrárias, tortura e morte. Um dos casos mais emblemáticos foi o do jornalista e professor Vladimir Herzog. Em outubro de 1975, convocado para depor no DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo, ele foi preso e apareceu morto em sua cela. Sua morte, cheia de indícios de tortura, provocou a mobilização da sociedade contra a tortura.
Saiba mais

• Combate nas Trevas, Jacob Gorender, Ática, 1997. Ex-dirigente do Partido Comunista do Brasil, Gorender conta detalhes do combate à ditadura• 1964 – Visto e Comentado pela Casa Branca, Marcos Sá Corrêa, LP&M, 1977. Traz o mais detalhado levantamento sobre o envolvimento americano no golpe brasileiro

Fonte: Guia do Estudante
Reportagem Sérgio Gwercman, Fernando Granato e Alessandro Meiguins

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