7 de out de 2014

O outro lado do cangaço

A liberação de um livro sobre Lampião, desta vez abordando uma suposta homossexualidade do bandoleiro mais famoso do Nordeste, é polêmica com fins comerciais. 

Na Bahia, um combatente de volante, matador do foragido Calais, morre aos 96 anos, em paz no anonimato com os seus. Entre os dois fatos, a certeza de que o cangaço não vai sair de cena jamais. Tema do Em Foco do Diario desta sexta-feira, escrito por Paulo Goethe.

A vez de Lampião

Em tempos de excrescências ditas por candidato à Presidência da República, o tema do cangaceiro gay vira uma nova polêmica.

Antes de ser emboscado e perdido a cabeça na grota de Angicos, em 28 de julho de 1938, Virgulino Ferreira da Silva acreditava ter o corpo fechado, apesar dos sete tiros que levou e do olho direito que perdeu desde 1921, quando já havia entrado para o mundo do cangaço. Violento, já era mito em vida. Desaforo, quando a sentença não era a morte, resultava em castrações nos homens e ferro quente no rosto das mulheres. Representante de um Nordeste sem lei, Lampião voltou a ser notícia não pelo seu comportamento de cabra macho ao extremo, mas muito pelo contrário. O corpo não seria tão fechado assim.

Liberado pela justiça depois de três anos de batalha com a neta do cangaceiro, Vera Ferreira, o livro Lampião, o Mata Sete, do juiz aposentado Pedro de Morais, aborda em 306 páginas uma suposta homossexualidade de Virgulino. Pedro Morais espera vender mais de dez mil exemplares de sua obra, cuja tese principal é contestada pelos mais sérios pesquisadores deste fenômeno histórico nordestino.

Pelo menos existe um lado bom nesta história. A decisão da 2ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Sergipe (TJ-SE) pode abrir um precedente no Brasil para autores que estão com biografias paradas na Justiça por aspectos que desagradam os herdeiros dos enfocados. Ao invés de censura prévia, mentiras e excessos devem ser punidos pelas vias legais. Se escreveu, é preciso provar.

Pedro Morais sabe que polêmica vende, ainda mais com a palavra cangaço no meio. E em tempos de homofobia nas redes sociais e excrescências ditas até por candidatos à Presidência da República, o tema homossexualidade está na ordem do dia. Só para ter uma ideia de como um cangaceiro gay atiça os ânimos, até as 18h de ontem a postagem no Facebook do Diario de Pernambuco sobre a liberação do livro do escritor sergipano já apresentava 1.459 compartilhamentos e 3.439 curtidas.

Lampião foi o responsável por introduzir as mulheres nos bandos que varavam o semiárido nordestino a partir do seu relacionamento com Maria Bonita. Costurava muito bem e gostava de perfume, mas estes gostos eram comuns entre machos e fêmeas das caatingas. A questão de gênero é uma lacuna no estudo do cangaço, mas com Lampião não teria disso, não. Tudo é diferente nos costumes do Sertão.

Enquanto a polêmica ocupava os desembargadores sergipanos, a vida real cobrava seu preço para quem gastou a juventude na época do cangaço. No povoado de São José, em Chorrochó, na Bahia, faleceu na segunda-feira, aos 96 anos, Teófilo Pires do Nascimento, ex-soldado de volante. Um dos últimos. Em 1998, ele deu seu depoimento para a série de cadernos especiais que escrevi para o Diario de Pernambuco sobre o cangaço. Teófilo, um simpático senhor que mais escutava do que falava, matou o cangaceiro Pedro 
Calais, famoso por suas maldades no sertão baiano.

Teófilo resolveu pegar em armas aos 14 anos de idade, em 1933. “Cheguei e disse: ‘meu pai, quero me alistar. Se não deixar, me encosto com Lampião’”, contou. No tempo em que serviu na polícia, não chegou a perseguir o principal cangaceiro, mas pelo menos um cangaceiro foi vítima de seu mosquetão. “Chamava-se Calais e estava desgarrado do grupo. Encontramos o rastro dele depois de seis dias de busca. O rastejador ficou com medo de emboscada e segui em frente. Vi que Calais estava cavando uma raiz de umbu para pegar água. Cada vez que ele baixava o cavador, eu dava um pulo para me aproximar. Quando estava a onze passos de distância ele percebeu, mas puxei o gatilho e vi seu baque”, narrou, fazendo o gesto do disparo.

Teófilo deu baixa em julho de 1938. Foi viver em paz com os seus. Até o fim.

Fonte: Diário de Pernambuco
por Paulo Goethe
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Item Reviewed: O outro lado do cangaço Rating: 5 Reviewed By: Carlos Silva