Se o Papa ou o Malafaia engravidassem, o aborto seria legal

Jandira pagou R$ 4,5 mil pela própria morte. Elizângela gastou R$ 2,8 mil para ser assassinada. Não, não são casos de eutanásia nem alguma história sádica de filme B. Elas saíram de casa decididas a fazer um aborto e não voltaram mais.

Os casos, que ganharam notoriedade recentemente, encabeçam a longa lista daquelas que perdem suas vidas porque estamos em um país hipócrita, que ignora o fato de que, a cada ano, entre 800 mil e 1 milhão de mulheres interrompem voluntariamente a gravidez.

Cálculos da OMS (Organização Mundial de Saúde) indicam que, onde a prática é legalizada, a taxa de mortalidade em decorrência de abortos induzidos varia de 0,2 a 1,2 mortes a cada 100 mil abortos nos países. Naqueles onde não é, o número sobe para 330 mortes a cada 100 mil abortos.

Adaptando um pouco essa conta: se o aborto é um fato cotidiano no Brasil e possui duas modalidades que dependem diretamente da renda da pessoa – a segura e a insegura, não é difícil concluir que estamos condenando à morte as mulheres mais pobres, que não possuem recursos financeiros suficientes para ter acesso a boas clínicas e para pagar pagar não só pelo tratamento médico, mas também pelo silêncio.

Em outras palavras, se Jandira e Elizângela tivessem nascido no Uruguai elas não teriam morrido. Nem se fossem parte dos 60% da população mundial que vive em países onde interromper a gravidez não é crime.

Por que o aborto não é legalizado no Brasil se temos números tão gritantes? Porque, apesar de o Estado ser laico, interesses religiosos de homens cisgênero ditam a vida das pessoas. E as eleições.

Não à toa a frase que dá título a esse post é levantada em cartazes Brasil afora: não podemos nos considerar em uma democracia se 52% das pessoas não têm o poder de decisão sobre seu próprio corpo. Legalizar o aborto não significa que todas as mulheres o farão, mas sim que é um recurso para aquelas que quiserem. Como mostra uma pesquisa de 2012, 1 em cada 5 mulheres até 40 anos já abortou voluntariamente e independentemente de sua crença religiosa.

Amanhã, 28/09, é o Dia Latino-americano pela Descriminalização do Aborto e ocorrerão atos e manifestações em algumas cidades brasileiras. Participe e ajude a defender a vida das mulheres:

São Paulo: a partir das 12h na Praça do Ciclista, no final da Av. Paulista.

Rio de Janeiro: Praia de Copacabana, Posto 6, às 14h.

Porto Alegre: às 15h nos Arcos da Redenção.

Belo Horizonte: às 14h na Praça da Estação.

Publico abaixo o manifesto divulgado pela “Frente nacional contra a criminalização das mulheres e pela legalização do aborto”:

MANIFESTO PELA VIDA DAS MULHERES! CONTRA TODA HIPOCRISIA!

O horror estampado nos jornais sobre as condições das duas mortes de mulheres — uma das quais mãe de três filhos — por aborto clandestino no Rio de Janeiro desvela a face criminosa da legislação punitiva do aborto no Brasil.

Sobre a mesma face, em todo mundo, e também no Brasil:

- É sobre as mulheres que recai a criminalização, seja na forma de maus tratos nos serviços de saúde, na detenção e humilhação pela polícia, na condenação pelo judiciário, ou pela morte;

- É sobre as mulheres pobres que recai a morte sem assistência adequada, que atenda às suas escolhas e decisões;

- É sobre as mulheres negras que recai o peso das desigualdades que impõem suas condições de maior vulnerabilidade a morrerem ou ficarem gravemente doentes.

Chega de violência!

A permanência do abuso e da violência sexual, do estupro, dentro e fora das famílias, explica grande parte o alto número de gravidezes indesejadas, ao mesmo tempo em que falhas nos serviços de planejamento familiar, pós-parto e pós-aborto, resultam na recorrência de muitas outras gravidezes indesejadas.

A política de “maternidade obrigatória” — como um dever das mulheres em quaisquer circunstâncias — é a doutrina conservadora que alimenta essas mortes e precariedades das políticas públicas.

A política de criminalização do aborto: fechamento de clínicas, proibição do uso e venda do cytotec, profissionais de saúde denunciando mulheres que chegam em hospitais com abortamento, a depreciação das mulheres que abortam por parte da imprensa e meios de comunicação, as mentiras e chantagens sobre o tema do aborto no período eleitoral, tem empurrado as mulheres para práticas de aborto mais inseguras e arriscadas, pois a clandestinidade do aborto não impede que nenhuma mulher aborte.

É chegada a hora de dizer basta! Vamos proteger a vida e autonomia das mulheres!

Até quando avanços na legislação e na efetivação das políticas de proteção aos direitos humanos, promoção da igualdade, redução de danos e promoção da saúde das mulheres serão bloqueadas pelos conservadores e fundamentalistas religiosos que misturam Política com Religião? O Brasil é um Estado Laico.

Nós abaixo-assinados tomamos posição pelo fim da criminalização das mulheres e pela legalização do aborto no Brasil!

Fonte: Carta Capital
Por Maíra

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