19 de set de 2014

19 de Setembro de 1921, nasce o educador Paulo Freire, autor da "Pedagogia do Oprimido"

“Uma das questões centrais com que temos de lidar é a promoção de posturas rebeldes em posturas revolucionárias que nos engajam no processo radical de transformação do mundo. 

A rebeldia é o ponto de partida indispensável, é deflagração da justa ira, mas não é suficiente. A rebeldia enquanto denúncia precisa se alongar até uma posição mais radical e crítica, a revolucionária, fundamentalmente anunciadora. A mudança do mundo implica a dialetização entre a denúncia da situação desumanizante e o anúncio de sua superação; no fundo, o nosso sonho”. 


(Paulo Freire)


INTRODUÇÃO

No dia dois de maio de 2007 completará dez anos da morte do professor Paulo Reglus Neves Freire, conhecido mundialmente como um grande educador, pensador, filósofo e militante da Educação. Inconformado com as injustiças sociais, Paulo Freire fez da educação um instrumento político de combate ao autoritarismo e de luta em favor da democracia. Dedicou sua vida a criticar toda e qualquer forma de opressão e tirania e questionou o método de ensinar e aprender impostos pelas classes dominantes como instrumento de manutenção do status quo. Em contraposição à educação bancária, onde o saber é transmitido de cima para baixo, autoritariamente, e o conteúdo tem um valor “em si”, construiu, coletivamente, um projeto educacional libertador, partilhado, capaz de criar uma cultura de pessoas livres, conscientes e responsáveis por si e pela coletividade.

Sua trajetória de vida - contribuição teórica, reflexão sobre a prática, propostas de políticas públicas especialmente para a área educacional- fizeram com que se tornasse referência mundial para intelectuais, profissionais de diversos campos do saber, atores sociais, educadores e educadoras, comprometidos com as causas populares, com a educação pública de qualidade e com a luta por uma sociedade mais justa
e igualitária.

Suas idéias, nos anos duros da ditadura militar, o levaram ao exílio por dezesseis anos. Continuou, porém, a desenvolver seu trabalho em diversos países, reafirmando sua opção política e sua concepção de educação, democrática e popular, dialética e dialógica, mostrando a intencionalidade do ato educativo.

Paulo Freire se fez e continua presente no mundo inteiro, principalmente entre aqueles e aquelas que sempre acreditaram e continuam a crer na possibilidade de construir um mundo novo e melhor, mais belo, mais humano e fraterno.

Esta homenagem a Paulo Freire, mais do que recordar, com saudade, um dos brasileiros mais ilustres, reconhecido internacionalmente por seu trabalho e testemunho de vida, tem um sentido simbólico: o de resgatar sua luta incansável por justiça social, através de um projeto de educação popular libertador, emancipador e transformador da realidade. Esta homenagem tem também por objetivo fazer desta oportunidade, um instrumento vivo de ação e de luta.

TRAJETÓRIA 

O cidadão brasileiro e cidadão do mundo

Paulo Freire, pernambucano, nasceu em Recife, em 19 de setembro de 1921. De família humilde, teve uma infância marcada por dificuldades econômicas e desde cedo conheceu a pobreza. Foi alfabetizado em casa, por seus pais, escrevendo com gravetos, no chão de terra debaixo das mangueiras do quintal. Como gostava muito de estudar, assim que concluiu a escola secundária, tornou-se professor.

Formou-se em Direito, mas não exerceu a profissão. Optou por se engajar na formação de jovens e adultos trabalhadores e por atuar em projetos de alfabetização. A partir de sua prática, com uma metodologia diferente, criou uma teoria epistemológica que o tornou conhecido internacionalmente.

A partir dos anos 60, desenvolveu uma proposta revolucionária de alfabetização através da qual, para além da mera aquisição da linguagem escrita, a partir da realidade vivencial dos educandos e do diálogo permanente, busca-se a leitura e a compreensão crítica do mundo, para poder transformá-lo.

Essa nova teoria valorizava o universo cultural e vivencial dos educandos, estabelece o diálogo como método e, através dele, a construção coletiva do conhecimento, estabelecendo uma relação “dialógica” entre natureza e cultura, fazendo com que os alunos se percebam como sujeitos e, portanto, construtores de sua própria história.

Dentro dessa perspectiva, a alfabetização é um processo de educação permanente, constituindo-se em instrumento de conscientização que gera projetos de transformação da realidade. Daí, porque, insistia o Professor, o ato de educar é eminentemente político e o fazer pedagógico, necessariamente coletivo. Foram suas atividades no Movimento de Cultura Popular no Recife que inspiraram sua teoria do conhecimento, da qual seu chamado “método de alfabetização” extrapolou os limites do país.

Como conseqüência dessa atuação, foi preso (1964) e exilado. Durante o período de exílio, trabalhou no Chile, com alfabetização de camponeses, nos Estados Unidos, ministrando aulas na Universidade de Harvard, como professor convidado, e depois se fixou em Genebra, na Suíça.

Lá, foi consultor especial do Departamento de Educação do Conselho Mundial de Igrejas, viajando e trabalhando em diferentes países, tornando-se mundialmente conhecido. Com outros companheiros de exílio, fundou o Instituto de Ação Cultural - IDAC e no início dos anos 70 trabalhou na África, especialmente nas ex-colônias portuguesas: Guiné Bissau, Cabo Verde, Angola, São Tomé e Príncipe. Assessorou campanhas de alfabetização e contribuiu efetivamente para sistematização de programas e projetos educacionais naqueles países.

Em 1980, com a anistia, voltou ao Brasil. Por considerar ofensivas as regras impostas, recusou-se a pedir a reintegração a seu cargo na Universidade Federal de Pernambuco. Passou então a trabalhar como professor na PUC/São Paulo e, em seguida, tornou-se professor da Universidade de Campinas - Unicamp, onde lecionou até o final de 1990.

Em 1989, foi convidado pela Prefeita Luiza Erundina para ser Secretário de Educação do Município de São Paulo. Sua Gestão caracterizou-se por ampla discussão sobre condições de ensino e de trabalho, onde o método “ação - reflexão - ação”, enquanto um processo prático e exigente de Gestão Democrática ia se consolidando; investiu não só na formação permanente dos educadores, mas melhorou as condições de trabalho com uma nova jornada; aprovou o primeiro Estatuto do Magistério da rede municipal de São Paulo; promoveu a revisão curricular via projetos de interdisciplinaridade e uma nova organização do ensino por meio de ciclos.

Fez da Gestão Democrática, nas suas diversas dimensões, uma diretriz política. Com democracia, participação colegiada e construção coletiva tornou-se um marco para a educação na rede municipal.
Com investimento na infra-estrutura, na formação dos profissionais, na democratização do acesso e permanência dos alunos e na gestão escolar conseguiu “mudar a cara da escola” e mostrou que é possível fazer da escola pública um lugar privilegiado de construção de conhecimento, de desenvolvimento de projetos e de inserção social. Reconhecido até pelos adversários, desenvolveu o melhor projeto de formação de professores da cidade de São Paulo.

Depois de deixar a Secretaria de Educação do Município de São Paulo, em 1991, retomou suas atividades acadêmicas publicando diversos livros e fomentando, de forma permanente, a discussão educacional.

O Professor Paulo Freire morreu em 02 de maio de 1997, aos 75 anos, na cidade de São Paulo.

ALFABETIZAÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO:

inseparáveis em Paulo Freire

O Brasil deve a Paulo Freire a inclusão na categoria de lutadores sociais de milhões de brasileiros e brasileiras que compreenderam o que é ser sujeito de sua própria história. Permitiu a um número expressivo de pessoas que pertenciam aos “de baixo” enxergarem–se como agentes transformadores na busca por uma sociedade mais justa e igualitária. Deu-lhes a chance de escolher seu próprio caminho, em vez de ficarem sempre presos às alternativas impostas pelas elites para perpetuar sua dominação de classe e a brutal exclusão social que sofrem os trabalhadores no Brasil, e em toda periferia capitalista.

Não é à toa que os interessados em manter seus privilégios e a alienação do homem e da sociedade brasileira viram logo no seu “método” um perigo iminente à manutenção do status quo, uma ameaça sem precedentes a seus valores e instrumentos de dominação, uma verdadeira “subversão da ordem”, pois se tratava não só de alfabetizar com rapidez e eficácia, mas, estimular o processo de conscientização. O medo das elites se agravava quanto mais crescia a aceitação de sua metodologia. Freire se refere a este fenômeno afirmando que “se não tivesse sido interrompido pelo golpe de 64, naquele ano, deveria estar em funcionamento vinte mil círculos da cultura em todo país”.

Paulo Freire como intelectual orgânico e, mais do que isso, como um militante político, ao colocar seus conhecimentos em prática, valorizando o homem do povo, aprendendo com a vida, formando educadores engajados e respeitadores da experiência e da sabedoria popular, transformava valores, atacava a meritocracia, o autoritarismo e a hierarquização nas relações. Subvertia a ordem do poder dominante, da lógica do lucro, dos ricos, valorizando o homem e a natureza.

Nesta passagem do seu livro “Educação como prática da liberdade” encontramos uma pequena síntese de porque o pensamento de Paulo Freire amedrontava aqueles que têm pavor do “despertar” das massas:

“Como explicar que um homem, analfabeto até poucos dias, escreva palavras com fonemas complexos antes mesmo de estudá-los. É que, tendo dominado o mecanismo das combinações fonêmicas, tentou e conseguiu expressar-se graficamente como fala.

A afirmação que nos parece fundamental de ser enfatizada é a de que, na alfabetização de adultos, para que não seja puramente mecânica e memorizada, o que se há de fazer é proporcionar-lhes que se conscientizem para que se alfabetizem.

Daí à medida que um método ativo ajuda o homem a se conscientizar em torno de sua problemática, em torno de sua condição de pessoa, por isso de sujeito, se instrumentalizará para suas opções.

Aí então, ele mesmo se politizará. Quando um ex-analfabeto de Angicos, discutindo diante do presidente Goulart e sua comitiva, declarou que já não era massa, mas povo, disse mais do que uma frase: afirmou-se conscientemente uma opção. Escolheu a participação decisória, que só o povo tem, e renunciou a demissão emocional das massas. Politizou-se.”

Diálogo e construção coletiva no pensamento de Freire

Uma característica do pensar e do agir, da maneira de se relacionar e aprender em Paulo Freire, diz respeito à forma como ele vê o outro. O aprender a ouvir, a valorização dos saberes que vêm da experiência e da cultura popular, a abertura para o diálogo com os diferentes e com os adversários para melhor apreender os antagonismos, são características essenciais do projeto educativo de Paulo Freire. O combate ao autoritarismo nas relações humanas e sociais e a corajosa crítica que faz ao sectarismo muito presente na vida e na política, com suas “certezas sectárias excludentes de possibilidades de outras certezas, negadoras de dúvidas” e o seu apelo à tolerância são outras marcas que vão dar consistência às ações de quem acredita no caráter coletivo do
projeto educativo.

Diz, Paulo Freire em “Extensão ou Comunicação?” que: “ser dialógico, para o humanismo verdadeiro, não é dizer-se descomprometidamente dialógico; é vivenciar o diálogo. Ser dialógico é não invadir, é não manipular, é não sloganizar. Ser dialógico é empenhar-se na transformação cons-tante da realidade”. Freire trabalha de forma excepcional o caráter social da aprendizagem. Combate com rigor a idéia do professor como transferidor de conhecimento, trata a educação como um ato político e ressalta a “diferença entre o falar com alguém e o falar para alguém”.

É na contestação à lógica de que a palavra deve estar com quem sabe; é combatendo a ideologia de que o educando nada sabe; é duelando com a lógica expandida de que o centro sabe e fala e a periferia do país escuta, que Paulo Freire demonstra o potencial humano e a capacidade do povo se assenhorar do conhecimento e fazê-lo instrumento da construção de um novo sonho e de uma nova vida transformada.

Nos diálogos que reproduzimos abaixo, retirados de experiências de Paulo Freire com trabalhadores rurais, é cristalina essa matriz de pensamento:

“- Muito bem - disse eu a eles. - Eu sei. Vocês não sabem. Mas o que eu sei e vocês não sabem? 
- O senhor sabe porque é doutor. Nós, não.
- Exato, eu sou doutor. Vocês não. Mas, porque eu sou doutor e vocês não?
- Porque foi à escola, tem leitura, tem estudo e nós, não.
- Por que fui à escola?
- Porque seu pai pôde mandar o senhor à escola. O nosso, não.
- E por que os pais de vocês não puderam mandar vocês à escola?
- Porque eram camponeses como nós.
- E o que é ser camponês?
- É não ter educação, posses, trabalhar de sol a sol sem ter direitos, esperança de um dia melhor.
- E por que ao camponês falta tudo isso?
- Porque Deus quer.
E quem é Deus?
É o Pai de todos nós.
- E quem é pai aqui nesta reunião?
Quase todos de mãos para cima, disseram que o eram.
Olhando o grupo todo em silêncio, me fixei num deles e lhe perguntei:- Quantos filhos você tem?
- Três.
- Você seria capaz de sacrificar dois deles submetendo-os a sofrimentos para que o terceiro estudasse, com vida boa no Recife? Você seria capaz de amar assim?
- Não.
- Se você – disse eu - , homem de carne e osso, não é capaz de fazer uma injustiça desta, como é possível entender que Deus o faça? Será mesmo que Deus é o fazedor dessas coisas?
Um silêncio diferente, completamente diferente do anterior, um silêncio no qual algo começava a ser pratejado. Em seguida:
Não. Não é Deus o fazedor disso tudo. É o patrão.”

Nesse trecho fica claro que o educador sabe que no meio do senso comum, convivem elementos de bom senso na experiência popular. Por outro lado, o diálogo, o aprendizado e o respeito ao saber popular, não podem levar o educador a uma visão complacente que não contribua para inflamar o debate e o despertar para descobertas fantásticas.

Outra faceta revolucionária dos seus ensinamentos aparece na constatação prática de que a participação crítica dos educandos e a liberdade com que o fazem é que confere efetividade ao aprendizado e ao projeto educacional.

O aprender com o outro, no diálogo com seus semelhantes, ensina Paulo Freire: “ninguém educa a ninguém, ninguém tampouco se educa sozinho, os homens e as mulheres se educam entre si, mediatizados
pelo mundo.”

Imprescindível homenagem

Paulo Freire mostrou de diferentes ângulos, unindo a dimensão ética e estética das relações humanas, que, atrás do ato de ensinar e aprender há uma clara opção política e que a educação nunca é neutra, toma partido, principalmente em um mundo fortemente marcado pela opressão e desigualdade social.

Sua práxis mantém-se atual e tem servido para fundamentar trabalhos acadêmicos, inspirado práticas em várias áreas do saber e, além disso, estimulado a participação popular e a organização dos movimentos sociais em diversas partes do mundo. 

Sua contribuição acadêmica e intelectual, com inúmeros livros publicados e traduzidos para vários idiomas, foi orientada para a emancipação da pessoa humana, para a liberdade e justiça social, para a democracia autêntica como soberania popular e para a paz entre os cidadãos, num clima de humanização e de conscientização.

Diante da importância de seu pensamento, do compromisso político-pedagógico e de sua trajetória de vida, prestamos esta necessária homenagem por ocasião dos dez anos da morte desse grande brasileiro e educador do mundo: Paulo Freire, reconhecendo que seu trabalho dignificou a Educação e o Brasil.

Fontes de Consulta:

FREIRE, Ana Maria Araújo. Paulo Freire: uma história de vida.Indaiatuba,SP: Villa das Letras, 2006.
SOUZA, Ana Inês. Paulo Freire – Vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2005.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
_____ Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
_____ Pedagogia da esperança: um encontro com a pedagogia do oprimido. 11ª. Ed. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
_____ Educação na cidade. 5ª. Ed. São Paulo: Cortez, 1995.
_____ Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

Fonte: ivanvalente
Por Ivan Valente com título original: Paulo Freire Vive!
Hoje, dez anos depois...

Texto de 2007
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