Voto rosa-choque

Há um século as mulheres não podiam votar. Para conseguir esse direito, algumas delas arregaçaram as angas e lutaram cara a cara com os homens - algumas vezes até a morte

De um lado, uma dona de casa educada para cumprir as ordens do marido. Do outro, uma escritora descontente. A separá-las uma da outra, quilômetros de distância. A separá-las de nós, uns 200 anos. A dona de casa era a americana Abigail Adams que, um belo dia, levantou decidida a peitar o marido e exigir direitos iguais aos dele. A escritora era a francesa Olympe de Gouges, autora de uma versão feminina da Declaração dos Direitos do Homem. As duas acabaram se dando mal: a americana foi ridicularizada publicamente pelo marido. E a francesa foi guilhotinada por “ter esquecido as virtudes próprias de seu sexo”.

Essas duas senhoras que viveram no século 18 se tornaram o ponto de partida para uma luta que durou décadas e só acabou há muito pouco tempo: o sufrágio feminino – direito de as mulheres escolherem seus representantes por meio do voto. Esse direito só foi conquistado pelas brasileiras recentemente, em 1932, pelas americanas em 1920 e pelas inglesas em 1928. As suíças votaram pela primeira vez somente em 1971. Se lembrarmos que, até então, na maioria desses países, as mulheres não podiam ser proprietárias de nada, eram proibidas de alugar um imóvel ou assinar um contrato sem autorização do pai ou do marido, não é difícil entender o tamanho da briga que a mulherada estava comprando. Era uma revolução. Não é à toa que o historiador britânico Eric Hobsbawm considera esse um dos momentos mais marcantes do século 20.

Mas o pontapé inicial na porta fechada ao voto feminino se deu bem antes. Considerada a primeira sufragista americana, Abigail Adams acompanhou de perto a Guerra de Independência Americana, no final do século 18. Seu marido, John Adams, foi um dos líderes da revolta contra os ingleses (em 1797, ele se tornaria o segundo presidente dos Estados Unidos). “Espero que no novo Código de Leis vocês se lembrem das mulheres e sejam mais generosos com elas do que seus antepassados. Estamos dispostas a nos rebelar e não obedeceremos nenhuma lei à qual não tivemos voz nem voto”, escreveu ela ao maridão, em 1776, quando ele ajudava a escrever a nova Constituição.

Embora não tenha sido atendida (e sua ameaça não tenha sido cumprida), Abigail plantou a semente do movimento sufragista, que pegaria fogo para valer em meados do século 19, nos Estados Unidos. O ambiente parecia propício a novas idéias e as mulheres pegaram carona no movimento contra a escravidão para dizer que queriam votar. Mas a rejeição masculina era de doer. Filósofos do quilate do inglês Herbert Spencer não admitiam nem a hipótese de a mulher estudar, que diria votar. “Cansar demais o cérebro produz moças de busto chato que jamais poderão gestar uma criança bem desenvolvida”, dizia ele.

Bobagens como esta ainda eram levadas a sério, mesmo entre os abolicionistas. Liberais quando o assunto era escravidão, reacionários quando era a participação política e direitos das mulheres. Isso ficou bem claro a partir do Congresso Mundial Antiescravidão de 1840, que reuniu, nos Estados Unidos, líderes políticos do mundo inteiro (como o príncipe Albert, marido da rainha Vitória, da Inglaterra). Mulheres simplesmente foram proibidas de participar. Entre as barradas no baile estava a escritora e militante abolicionista Elizabeth Cady Staton.

Inconformada, ele começou a reunir outras mulheres descontentes até conseguir organizar, em 1848, a primeira Convenção dos Direitos da Mulher, realizada em Nova York. O encontro atraiu pouco mais de 300 pessoas e hoje é lembrado como marco inicial do movimento sufragista americano. Ali foi escrita a Declaração dos Sentimentos, uma versão feminista da Declaração de Independência dos Estados Unidos, que começa com a frase: “Acreditamos serem estas verdades evidentes: que todos os homens e mulheres foram criados iguais”.

A sociedade recebeu mal o anseio sufragista. “Mulheres foram agredidas nas ruas com frutas podres e insultadas pela imprensa”, diz a jornalista americana Eleanor Cliff, autora de Founding Sisters (“Irmãs Pioneiras”, inédito no Brasil). O livro reproduz trechos de jornais da época que classificaram o encontro em Nova York de “a convenção das galinhas”. Em um artigo, as sufragistas são descritas como “esposas divorciadas, mulheres sem filhos ou solteironas”. Apesar do preconceito, elas foram em frente e, em 1851, reuniram-se para a Convenção de Ohio, onde a defesa do voto feminino foi, de uma vez por todas, alardeada para o mundo. A responsável foi a ex-escrava Sojourner Truth, ao subir na tribuna e dizer as palavras até hoje repetidas em reuniões feministas do mundo todo. “Olhem para mim. Olhem para o meu braço. Eu lavrei a terra, plantei e juntei tudo no celeiro e nenhum homem poderia me liderar! E não sou eu uma mulher?”, disse.

Se as americanas tentavam resolver tudo em encontros políticos e discursos enfáticos, as inglesas foram mais – muito mais – radicais. Lideradas por Emmeline Pankhurst, mulher do advogado Richard Pankhurst (famoso defensor da emancipação da mulher, autor da lei que garantiu às inglesas o direito à propriedade), fundaram, em 1903, o WSPU (sigla em inglês para “União Social e Política das Mulheres”), que recentemente a Scotland Yard, a polícia britânica, classificou como a primeira organização terrorista do país. Não é para menos: sob o lema “Ações, Não Palavras”, as suffragettes, como eram conhecidas as integrantes do WSPU, imprimiram um ritmo violento à campanha pelo voto. Christabel, filha de Emmeline, foi a primeira suffragette a ser presa, em 1905: ela esbofeteou um policial depois de invadir a sala de um parlamentar. Em janeiro de 1912, o partido promoveu um incêndio num posto do correio em Londres. Ninguém saiu ferido, mas três ativistas ficaram seis meses atrás das grades. Em novembro do mesmo ano, durante uma passeata, as representantes do WSPU apedrejaram as vidraças da Câmara dos Comuns, sede do Poder Legislativo inglês. As manifestações incluíram até um ato suicida.

As detenções de sufragistas se tornaram tão comuns que viraram parte da estratégia para divulgar a causa. Em 1912, a própria Emmeline foi detida 12 vezes e, em todas elas, se recusou a comer. A polícia acabou soltando Emmeline, temendo que ela morresse sob a custódia do Estado. O sucesso da estratégia fez com que várias suffragettes se deixassem prender só para fazer greve de fome na cadeia e, dessa forma, atrair todas as atenções para a causa.

A Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, foi decisiva para as pretensões sufragistas. “Alçadas a cargos importantes no mercado de trabalho, em fábricas, bancos e hospitais durante o esforço de guerra, as mulheres não voltariam a posições subalternas depois do conflito”, escreveu Hobsbawm, em Era dos Extremos: o Breve Século 20. Nos Estados Unidos as primeiras eleições com a participação das mulheres ocorreram em 1920 – mais de 50 anos depois de os escravos libertos adquirirem o direito de votar. Na Inglaterra, o Parlamento aprovou o voto feminino em 1928 – ironicamente, poucas semanas depois da morte de Emmeline Pankhurst.

Pátria amada

No Brasil, as coisas andaram um pouco mais devagar. A discussão sobre o voto feminino chegou ao Congresso Nacional pela primeira vez em 1891. Influenciados pelo movimento das americanas e inglesas, alguns deputados propuseram estender o direito de voto às mulheres que possuíssem diploma de curso superior e não estivessem sob a custódia do pai. O resultado foi desastroso: os congressistas consideraram a emenda “anárquica”. Entre seus argumentos: a inferioridade da mulher e o perigo de dissolução da família.

O movimento decisivo para a conquista do voto pelas brasileiras chegou na bagagem da bióloga Bertha Lutz, que voltava de uma temporada de estudos em Paris, em 1919. De lá, Bertha trouxe os ideais sufragistas e não tardou para organizá-los por aqui: aliando-se à militante anarquista Maria Lacerda de Moura, Bertha fundou a Liga pela Emancipação Intelectual da Mulher, que, em 1922, passou a se chamar Federação pelo Progresso Feminino.

Esse foi um período de intenso intercâmbio entre as sufragistas inglesas, americanas e brasileiras. “Intermediadas por Bertha Lutz, elas tinham muita comunicação entre si. As americanas vinham apoiar a luta das brasileiras e vice-versa”, afirma a socióloga Eva Blay, da Universidade de São Paulo. Em 1927, o Rio Grande do Norte incluiu em sua Constituição um artigo permitindo o voto feminino, que fez a mobilização se intensificar ainda mais. Mas esse direito foi estendido para todo o país somente em 1932, com um decreto-lei aprovado pelo então presidente Getúlio Vargas.

Foi o fim de uma guerra de séculos, vencida lentamente, passo a passo. Para chegarem à vitória, as mulheres usaram estratégias que pediam uma astúcia fora do controle das regras masculinas. E é exatamente assim que elas costumam conseguir deles tudo o que querem – em todas as esferas da vida.

As pioneiras do voto feminino

O que a mulher do presidentedos Estados Unidos e uma ex-escrava têm em comum.

Abigail Adams (1744-1818)

Proveniente de uma família de prestígio, Abigail casou-se aos 19 anos com John Adams, futuro presidente dos Estados Unidos. Em 1776, enviou uma carta ao marido: “Não nos consideraremos obrigadas a obedecer nenhuma lei na qual não tivemos voz nem voto”. Embora a resposta de Adams tenha sido dura, Abigail nunca deixou de brigar por suas idéias. “Não dêem muito poder a seus maridos”, conclamava. “Lembrem-se de que todos os homens seriam tirânicos se pudessem.”

Sojourner Truth (1797-1833)

Abolicionista e ativista pelos direitos das mulheres, especialmente das ex-escravas. Isabella Baumfree, seu nome de registro, foi escrava até os 30 anos, quando fugiu e juntou-se aos reformistas. Por seu carisma e incrível capacidade de levar a platéia às lágrimas, Sojourner causava comoção cada vez que falava sobre as atrocidades às quais foi submetida durante a escravidão. Em seu lendário discurso intitulado “E não sou uma mulher?”, tornou-se símbolo da luta pela igualdade de direitos nos Estados Unidos.

Elizabeth Cady Staton (1815-1902)

Nascida em Johnston, estado de Nova York, filha de um juiz, Elizabeth representou papel essencial numa das primeiras conquistas femininas dos Estados Unidos, o direito à propriedade. Casada com um jornalista abolicionista, foi ela quem organizou a lendária Convenção pelos Direitos das Mulheres em Nova York, em 1848, e redigiu a Declaração dos Sentimentos, baseada na Declaração de Independência americana, que declarava que homens e mulheres eram criados iguais.

Emmeline Pankhurst (1858-1928)

Fundadora do WSPU (União Social e Política das Mulheres), a principal organização sufragista da Inglaterra, Emmeline dedicou sua vida inteira à causa. Seus métodos agressivos de luta, como incentivar a depredação e o apedrejamento de casas e até da Câmara dos Comuns, por exemplo, fizeram com que ficasse conhecida como uma das primeiras terroristas de seu país. Ela e sua filha, Christabel, foram presas inúmeras vezes. Na maioria delas, Emmeline conseguia ser solta após severas greves de fome.

Bertha Lutz (1894-1976)Líder na defesa dos direitos das mulheres no Brasil, Bertha nasceu em São Paulo, filha do cientista e médico Adolfo Lutz. Aos 17 anos, foi estudar na Europa e trouxe de lá os ideais sufragistas. Criou, em 1919, a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher. Representou o Brasil no Congresso da Liga das Mulheres Eleitoras nos Estados Unidos. Mesmo depois de estabelecido por lei o voto feminino, Bertha continuou a lutar pelos direitos da mulher até sua morte, aos 82 anos.

Mulher bomba

Sufragista inglesase atira na frente de um cavaloe morre pela causa

Militante do WSPU (Women Social and Political Union), a inglesa Emily Wilding Davison escreveu seu nome na história da luta pelo direito de voto feminino de maneira trágica: jogando-se na frente do cavalo do rei da Inglaterra. Emily escolheu o cenário a dedo: Derby, Inglaterra, dia 4 de junho de 1913. Ali acontecia, como em todos os anos, a mais famosa corrida de cavalos do mundo (até hoje se usa o termo dérbi para designar esse tipo de esporte). O evento reunia a nata da elite da época, incluindo a família real. Em uma cerimônia cheia de pompa, o rei George V apresentou seu animal, Anmer, e o jóquei que iria conduzi-lo, Herbert Jones. A manifestante Emily, velha terrorista conhecida pela polícia – já havia sido presa por incendiar postos dos correios e apedrejar a Câmara dos Comuns, entre outras peripécias – estava na arquibancada, quieta, esperando o momento de entrar em cena.Dada a largada, Emily pulou as barreiras que separavam a pista do público e atirou-se à frente do cavalo Anmer, que caiu em cima dela, derrubando o jóquei. Alguns espectadores ouviram-na gritar: “Votos para as mulheres!”, pouco antes de se atirar. Outras testemunhas disseram que Emily teria tentado agarrar as rédeas do animal, mas a pancada foi terrível. Com sérios ferimentos, incluindo danos irreversíveis no coração, Emily foi levada às pressas para o Epsom Cottage Hospital, onde morreu quatro dias depois. Apesar de ter se tornado mártir do movimento sufragista, seu gesto teve efeito contrário na prática: “Se uma mulher bem educada foi capaz de uma atitude dessas, imagine o que fariam as outras”, disseram os parlamentares. Na lápide de Emily, restou a inscrição: “Ações, Não Palavras”.

Vovó queria votar

Jornalista fala de sua avó,Eugenia Moreyra, uma das primeiras sufragistas brasileiras

Eugenia Moreyra foi uma mulher corajosa como poucas. Em 1914, aos 16 anos de idade, a primeira jornalista brasileira de que se tem notícia já escrevia artigos ousados dizendo: “A mulher será livre somente no dia em que passar a escolher seus representantes”. Foi com essas palavras que ela acendeu o debate sobre o voto feminino no Brasil. Eugenia trabalhou nos jornais A Rua, A Notícia e O País. Casou-se com um colega de profissão, Álvaro Moreyra, mas nunca parou de trabalhar. Entre suas netas está a repórterda TV Globo Sandra Moreyra, que fala, com exclusividade para Aventuras na História, sobre o orgulho que sente da avó.

"Sufragista, repórter, atriz, comunista, mãe de oito filhos. Essa era minha avó. Morreu cedo. Por isso não a conheci, mas, desde criança, me encantava ouvir meu pai contar a história dela. Eugenia Brandão era o seu nome de solteira. Nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais. Ainda menina, mudou-se para o Rio, com a mãe viúva. Começou a trabalhar cedo, como vendedora numa livraria. Nas horas vagas, estudava francês, lendo dicionários. Um dia, decidiu ser repórter. Entrou na redação do jornal vespertino A Rua e propôs ao editor uma série de pautas. Foi contratada. Ficou conhecida no Rio de Janeiro da época por uma reportagem sobre um asilo de moças, onde as meninas sofriam maus-tratos. Ela se internou no asilo, como uma jovem pobre e abandonada pelo namorado. Lá, conversou com outras moças, apurou as denúncias e uma noite fugiu para contar a história. Tinha só 16 anos. Vovó esperta.

Eugenia não lutou apenas pelo voto feminino, queria a participação das mulheres na vida política do país. Meus avós foram membros do Partido Comunista, nos tempos de sua fundação. Participavam de comícios e manifestações. Foram parar na cadeia por causa disso. Em 1936, quando Luís Carlos Prestes e sua mulher Olga Benário foram para a prisão, meus avós também foram presos. Eugenia ficou presa com Olga, na sala 4 do Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS. Fez greve de fome contra a decisão do governo brasileiro de deportar Olga para a Alemanha de Hitler.Olga era judia e acabou morrendo num campo de concentração. Era forte e doce, rigorosa e cheia de sonhos. Quando meu avô, Álvaro Moreyra, fundou uma companhia de teatro, o Teatro de Brinquedo, lá foi ela para o palco, virou atriz. Vovó foi musa dos modernistas. Declamava poemas de Oswald e Mário de Andrade e Raul Bopp nos teatros do Rio e São Paulo. Foi esposa, mãe, avó e rebelde. Tudo ao mesmo tempo e até o fim da vida, aos 49 anos. Quando ela morreu, em 1948, o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu: ‘A poesia tinha para ela um valor essencial. Foi mulher encantadora e brava. Pagou caro por suas idéias’."

Saiba mais - Livros

Founding Sisters, Eleanor Cliff, Turning Points, 2004 - Jornalista americana conta a história das sufragistas de seu país

A Mulher Brasileira e suas Lutas Sociais e Políticas: 1850 a 1937, June E. Hahner, Brasiliense, 1981 - Ilustrado com fotos, o livro narra a luta pelo direito de voto das mulheres no Brasil

Site: http://www.historylearningsite.co.uk/suffragettes.htm - Página dos professores de história britânica online traz tudo sobre o movimento inglês e suas principais personagens.

Fonte: Guia do Estudante
Por Mariana Sgarioni 

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