O que a ecologia tem a ver com o futuro dos jornais?


Até agora o debate sobre o futuro dos jornais vem sendo monopolizado pela preocupação em torno de um novo modelo de negócios, mas a sustentabilidade das empresas do ramo passou a depender também de fatores como energia e meio ambiente. É que o futuro da indústria dos jornais, bem como de todas as demais indústrias contemporâneas, não pode mais ser visualizado apenas no contexto imediato da atividade de cada empresa.

Os jornais e revistas impressas dependem de papel, que vem das árvores, cuja derrubada afeta o meio ambiente e consequentemente a termodinâmica do globo terrestre, da qual depende a geração de energia do planeta. A relação entre estes fatores diversos tornou-se palpável pela primeira vez na história humana graças ao fenômeno da globalização informativa, provocada pela globalização econômica e consolidado pela internet.

Se a sobrevivência dos jornais dependesse apenas do papel, o destino da indústria já estaria selado, pois ela inevitavelmente acabaria vítima da pressão mundial pela recuperação ambiental do planeta. A combinação da digitalização e da internet cria condições para a continuidade do negócio da imprensa, mas impõe a necessidade de mudança drástica no seu modelo de negócios.

O papel continuará a existir, mas o seu consumo passará a ser determinado por exigências ambientais que obrigarão os executivos da imprensa a pensar além do retorno financeiro com assinaturas, prestação de serviços e publicidade. A produção de jornais depende também do consumo de energia, fator que assume cada vez mais uma importância crítica não apenas em matéria de custos, mas principalmente em matéria de equilíbrio termodinâmico no planeta, um tema complexo que está deixando rapidamente de ser uma exclusividade dos físicos e matemáticos para cair na “boca do povo”.

A física ensina que a quantidade de energia acumulada na Terra é constante, mas ela muda de forma e cada mudança gera uma perda que é materializada num formato não utilizável pelo homem (são as famosas duas leis da termodinâmica). Quando fazemos uma fogueira transformamos a energia existente na lenha em calor, que é utilizado para cozinhar, iluminar ou aquecer. A energia calórica ou visual gerada pela queima da lenha é apenas uma fração do total da energia existente na madeira. O resto é o que chamamos de desperdício ou ineficiência, que não verdade é uma forma de energia que, hoje, não conseguimos reutilizar.

A indústria dos jornais nunca se preocupou com as leis da termodinâmica, mas agora terá que levá-las em conta porque a humanidade está entrando num contexto informativo inédito em sua história. O nosso universo informativo, que em épocas pré-históricas estava restrito à tribo, depois ampliou-se a aldeias, cidades e nações. A geografia sempre marcou os limites, mas agora o padrão, que está sendo implantado pela internet, passou a ser a identidade entre pessoas vinculadas a redes virtuais nas quais diminui drasticamente a importância da nacionalidade ou raça, por exemplo.

Fenômenos como o aquecimento global levaram a humanidade a se preocupar cada vez mais com a sua sobrevivência tanto imediata como futura. Este é o contexto dentro do qual os jornais buscarão o desenvolvimento de um modelo de sustentabilidade que lhes permita sobreviver não apenas como negócio, mas com projeto informativo socialmente relevante. Trata-se de um contexto ainda sujeito a muitas alterações e mudanças, o que obriga os executivos a pensarem na preservação do foco de sua atividade, porque é ele que cria o diferencial capaz de alavancar a sustentabilidade econômica.

Se formos esmiuçar a missão dos jornais verificaremos que eles são comprados porque as pessoas acreditam que eles darão informações isentas, exatas, relevantes e atuais. A confiança é a matéria-prima mais importante de um jornal, em qualquer formato e em qualquer contexto. O ritmo industrial e a inserção comercial da mídia impressa levaram muitas empresas a se preocupar mais com a lucratividade do que com a manutenção da credibilidade.

A crise de confiança gerou a perda massiva de leitores, especialmente nos Estados Unidos, criando a sensação de que os jornais podem desaparecer. É muito arriscado fazer previsões sobre a continuidade ou não da imprensa escrita, mas tudo indica que ela não deixará de existir porque a leitura é e será sempre uma forma de transmissão de dados, informações e conhecimentos.

Há um enorme debate sobre o que os jornais devem fazer, como mostrou o estudo feito pelo meu colega Caio Tulio Costa, aqui do Observatório, uma leitura obrigatória para quem se preocupa com o futuro da imprensa. Um dos temas deste debate e a questão da confiança, item imaterial, mas que está associado a algo concreto, a marca de um jornal.

A marca de um jornal é independe das plataformas usadas para pela publicação. Pode ser impressa, audiovisual ou pela internet. É talvez a única forma o item menos vulnerável às inevitáveis mudanças e contramudanças que ainda vão acontecer na transição entre modelos predominantes na economia. O investimento na marca é quase uma obrigação na hora de pensar em continuidade dos jornais. Acontece que marca sem credibilidade, não serve para nada.

Fonte: observatoriodaimprensa
Por Carlos Castilho

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