22 de mai de 2014

CASO RACHEL SHEHERAZADE, O calvário da jornalista


Desde que emitiu uma opinião sobre o linchamento público de um jovem no Rio de Janeiro, em fevereiro, a jornalista paraibana (ainda) âncora do jornalístico SBT Brasil Rachel Sheherazade, de 40 anos, vem enfrentando um verdadeiro calvário. Primeiro o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro emitiu nota de repúdio à sua opinião. Em seguida, políticos e partidos entraram na briga.

A expressão usada pela jornalista, que afirmou ser “até compreensível” a atitude dos populares justiceiros, vem sendo criminosamente superexplorada por pseudo defensores dos direitos humanos, que a acusam de fazer apologia ao crime em rede nacional. Uma ação corre na justiça com o objetivo de calar a jornalista.

Em declaração à imprensa, a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), autora da representação contra Sheherazade, foi ameaçadora: “ou tira do ar a jornalista ou recebe punição”. A retaliação seria ao SBT, que vem sendo chantageado pelo governo do PT, que ameaça cortar cerca de R$ 150 milhões em verbas publicitárias repassadas ao canal de Silvio Santos. O SBT cedeu à pressão e recentemente proibiu os comentários de Rachel e seu companheiro de bancada, Joseval Peixoto, no jornalístico. A censura está de volta! A ideia dos moralistas de meia pataca era essa mesmo: a Rachel tem que ser calada nem que seja na marra, à base do chicote.

A ação tresloucada e ridícula aceita pela Procuradoria Geral da República ameaça não só a jornalista e o SBT. Ameaça a liberdade de expressão e a própria Constituição Federal. Fere o direito do povo à informação. Põe em xeque a democracia.

Violência simbólica

Por falar nela, democracia vem do grego demokratía (demos=povo; kratos=autoridade) – governo pelo qual a soberania é exercida pelo povo. Neste tipo de governo admite-se a diversidade de opiniões. Teoricamente, numa democracia é normal que haja discordâncias. Os cidadãos podem discordar até mesmo do governo, diferente de regimes totalitários. E é aqui onde está a beleza da demokratía.

Outro fator interessante é que numa democracia a imprensa é livre e o direito à informação é um princípio fundamental, expresso inclusive na nossa Constituição de 88. Tentativas de calar profissionais da imprensa deveriam estar ligadas apenas ao autoritarismo e não à democracia. Mas infelizmente essa sombra diabólica ronda nosso frágil sistema democrático brasileiro. Nos faz relembrar horrores de outrora.

Como esquecer a imagem horripilante do jornalista Vladimir Herzog pendurado pelo pescoço nas dependências do 2ª Exército, em São Paulo, em 25 de outubro de 1975, numa tentativa dos torturadores de mascarar as verdadeiras causas de sua morte? A farsa não prevaleceu. Recentemente, a Comissão Nacional da Verdade pediu a retificação do atestado de óbito do jornalista, fazendo constar que seu óbito decorreu de lesões e maus tratos. A morte de Herzog é mais um triste silêncio da ditadura, que mancha nossa história. Silêncio rompido. Mas violências similares continuam a ser cometidas. O linchamento moral que estão fazendo com a jornalista Rachel Sheherazade é criminoso, é covarde! A violência neste caso pode não ser física, mas é simbólica e não menos atroz.

“Senhor do Brasil”

O pretexto usado pelos censuradores pós-democráticos é o “compreensível” da jornalista. Porém, percebe-se que a real motivação para se pedir o pescoço da profissional é outra. Muito mais além. Para os patrulhadores ideológicos, Rachel representa uma “voz inimiga”, antipetista.

Todos sabem que Sheherazade é uma ferrenha crítica do governo e do neofascista Partido dos Trabalhadores. E em ano eleitoral, a investida é para tentar calar uma das poucas vozes contrárias ao alucinógeno discurso petista. O objetivo é continuar a ditadura do discurso único. Pois, com a Sheherazade amordaçada não há ameaça aos planos do PT (isto é, do dono do Brasil) de reeleger sua “presidenta”.

E não é de hoje que o “senhor do Brasil” se incomoda com as opiniões da jornalista. Mas com razão! Afinal, as palavras da profissional são duras, diretas e “deselegantes por demais” aos ouvidos de um deus. Em uma sociedade machista e patriarcal como a nossa, Rachel Sheherazade também sofre o ônus da beleza de ser mulher. Uma mulher de opinião firme e sede de justiça.

Discurso de mentira

Rachel não é a precursora do jornalismo opinativo na TV brasileira. Expoentes como Arnaldo Jabor, José Neumane Pinto, Alexandre Garcia, Jorge Kajuru, Datena, Boechat e o próprio Joseval Peixoto, já o fazem há anos. A diferença é que agora se trata de uma mulher. Atrevida! Com uma irritante mania de “meter bedelho onde não é chamada”.

No jornalismo brasileiro, a figura da mulher não está associada à opinião, mas apenas a um rostinho bonito diante das câmeras. Neste contexto, Rachel emerge rompendo paradigma. Por isso, querem silenciá-la.

A artilharia usada contra Sheherazade é pesada. A pressão partiu de cima. Chegaram a cogitar a revisão, junto ao Ministério das Comunicações, da concessão do SBT. Uma clara tentativa de cerceamento. Esse é o chamado controle social da mídia, condenado pela então presidente recém-eleita, Dilma Rousseff.

“O controle social da mídia é um absurdo. É um acinte à liberdade de imprensa. Não compactuo com isso. [...] qualquer tentativa de coibir a imprensa no que se refere à divulgação de ideias, propostas, opiniões, tudo o que for conteúdo, é o que eu falei: o barulho da imprensa é infinitas vezes melhor do que o silêncio das ditaduras”, declaração da presidente em novembro de 2010.

Hoje, analisando as belas palavras presidências, nos deparamos com vários questionamentos: Mas, espera aí... Como assim? O tempo realmente trai os discursos, como afirma o psicanalista Augusto Cury, ou terá sido este mais um discurso de mentira?

Fonte: observatoriodaimprensa
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Genisson Santos é jornalista e comunicólogo
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