4 de abr de 2014

Grávida não vale nada (Poema para Adelir)


Médica, juiz e polícia obrigaram gestante gaúcha a fazer cesárea a força. “A grávida é um serviço prestado”, parece pensar sociedade.

Não poderia escrever sobre outra coisa esta semana que não o episódio de autoritarismo da justiça sobre o corpo de uma mulher. Na terça-feira passada, às 42 semanas de uma gestação, Adelir Carmem Lemos de Goes foi levada à força pela polícia para um hospital para fazer uma cesárea, contra a vontade dela. Uma ordem judicial forçou a cirurgia desnecessária, arriscando a vida de Adelir. A justificativa dada pelo juiz? Preservar a vida do bebê. [leia a notícia aqui]

Depois de escrever sobre como o corpo das mulheres não lhes pertence, e sobre gravidez e maternidade aqui, aqui e aqui, não tenho muito mais o que racionalizar. Preferi escrever um poema. Quem sabe dizendo de outra maneira as pessoas passem a entender, já que falar em política, liberdade, conceitos, antropologia, sociologia, poder, feminismo e gênero não está adiantando muito.


A GRÁVIDA NÃO VALE NADA

(por Marília Moschkovich)

A grávida não vale nada,

A grávida não vale uma vida,

Não vale a vida que gasta.

A grávida não é exatamente uma mulher.

A grávida é uma transição.

A grávida assim segue.

A grávida deixa de ser grávida.

Toda grávida se torna ainda mais mulher.

Toda grávida deixa de ser mais uma mulher.

A grávida não tem que querer.

A grávida obedece.

A grávida diz que sim ao médico,

à moral,

aos bons costumes.

A grávida não diz.

A grávida não trepa.

A grávida nem tem tesão.

A grávida não decide.

A grávida não sabe nada.

A grávida não sente nada.

A grávida é frágil e delicada.

A grávida engravida por instinto.

A grávida tem mesmo é que se foder.

Não foi bom na hora de fazer?

A grávida é ninguém.

A grávida não tem história.

A grávida não tem planos.

A grávida não é um ser humano.

A grávida é um cálice sagrado.

Toda grávida é um serviço prestado.


Fonte: outraspalavras.net
por Marília Moschkovich
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