7 de mar de 2014

Feministas falam sobre o que ainda precisa mudar em relação à mulher

"Por lei, na sociedade contemporânea, nós, mulheres, temos direitos iguais aos dos homens. Mas, culturalmente, ainda somos criadas para perpetuar valores conservadores. Nem sempre a gente fala ou age de forma machista por querer, mas por reproduzir um padrão que aprendemos como certo. O machismo é naturalizado. Existe uma crença de que 'biologicamente' a mulher é mais sensível, nasce com o dom de ser 'multitarefa'. A consequência disso é desastrosa: as mulheres que lutam por liberdade sexual ou qualquer valor diferente dos impostos, se sobrecarregam ou sofrem preconceitos por não se enquadrarem naquilo que a sociedade espera". Liana Sampaio Carvalho, 39 anos, de Itajaí (SC), jornalista, empresária e administradora da página do Facebook "Moça, Você é Feminista". Por Heloísa Noronha, do UOL, em São Paulo.

"São muitos os pensamentos que ainda precisam ser mudados, começando pelo padrão duplo de sexualidade. É incrível que mulher que faz sexo ainda seja xingada, enquanto o homem que faz exatamente a mesma coisa é vangloriado. Acima de tudo, é preciso parar de querer vigiar e punir o corpo das mulheres. Se o corpo feminino parar de ser visto como algo suspeito, poderemos legalizar o aborto, por exemplo, fundamental para que tantas brasileiras deixem de morrer pelas mãos de clínicas clandestinas. Também é preciso que a mulher pare de ser considerada propriedade do homem. Esse sentimento de posse faz com que, de todas as mulheres assassinadas no mundo, uma em cada três seja morta pelo parceiro, o que ainda insistimos em chamar de crime passional, enquanto o mais apropriado seria 'feminicídio'. É preciso, em linhas gerais, que mulheres sejam vistas e tratadas como seres com total autonomia". Lola Aronovich, 46 anos, professora de Literatura em Língua Inglesa da UFC (Universidade Federal do Ceará) e autora do blog feminista "Escreva Lola Escreva" .

"Acredito que entre todos os pensamentos que a sociedade ocidental precisa mudar o de que existe uma 'mulher fácil' figura entre os mais urgentes. Além desse tipo de ideia ser um estímulo à cultura do estupro, em algumas mulheres ela pode operar como uma castração psicológica que limita a vida sexual feminina". Giulia Gramuglia, 20 anos, estudante de jornalismo e integrante da Frente Feminina Casperiana e do Grupo de Ação, composto apenas por mulheres, da Faculdade Casper Líbero, de São Paulo .

"Falta à sociedade olhar as mulheres como indivíduos livres, que podem e têm o direito de exercer sua vontade. É necessário enxergá-las como pessoas que não precisam do aval de um terceiro. Precisamos olhar a figura feminina com igualdade em relação à figura masculina, sendo permitido a ela todos os direitos que um homem pode ter. Libertá-la dos tabus, dos padrões e do moralismo". Aline Santos, 21 anos, de Santo Antônio de Jesus (BA), estudante de Administração de Empresas e administradora da página do Facebook "Moço, Eu Sou Lésbica" .

"Acredito que a visão do corpo da mulher como propriedade pública é algo que deve ser mudado. O desrespeito nas ruas, nos transportes públicos e nos ambientes de trabalho retrata a desvalorização sofrida e a visão de que o corpo feminino pode ser abusado, machucado, subjugado. Lutamos por respeito". Nathalia Bernardes do Amaral, 25 anos, representante do Coletivo de Mulheres da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) .

"As mulheres brasileiras, há décadas, passam por processos de transformação pessoal, profissional e mudaram o país. Contudo, segundo pesquisa do Data Popular, 89% dos homens consideram inaceitável que a mulher não mantenha a casa em ordem; apesar de quase todos os domicílios terem TV, apenas 55% possuem máquina de lavar; 56% da população conhecem um homem que já agrediu uma parceira e 54% conhecem uma mulher que já sofreu agressão do parceiro. Em 2010, um estudo da Fundação Perseu Abramo mostrou que 94% das brasileiras acreditam que existe machismo no Brasil. E segundo uma pesquisa do DataSenado de 2013, 90% das brasileiras afirmam que as mulheres nem sempre são tratadas com respeito por aqui. No Brasil, as mulheres derrubaram dogmas arraigados da sociedade e alcançaram, com garra e competência, maior espaço. Há, sim, o que comemorar, mas ainda falta muito a conquistar, em especial respeito e poder". Jacira Vieira de Melo, militante feminista desde os anos 1970, especialista em Comunicação Social e Política na perspectiva de gênero e raça e diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão, de São Paulo (SP) .

"A ideia da submissão feminina precisa ser mudada. A mulher ainda é vista como submissa às vontades dos homens, ainda é tratada com propriedade ou como objeto, ainda é colocada à disposição das vontades masculinas e ocupa uma posição de dependente. As mudanças estão acontecendo lenta e gradualmente. Falta muito para que possamos comemorar". Renan Fernandes, 25 anos, de Jundiaí (SP), engenheiro civil e administrador da página do Facebook "Homens contra o Machismo" .

"A sociedade precisa parar de ditar se a mulher deve ter filhos ou não, que roupas deve usar, quantos parceiros sexuais deve ter, qual profissão escolher, culpá-la por assédios sexuais e estupros, conferir a ela a obrigação exclusiva de cuidar da casa e dos filhos e tantas outras coisas baseadas no mito do que é 'ser mulher de verdade'. O que existe, no entanto, são formas idealizadas e preconceituosas de masculinidade e feminilidade, assim como papéis correspondentes a essa construção. Tudo o que é social e cultural pode mudar e, nesse caso, tem de mudar". Monique Amaral, 23 anos, linguista, militante do Coletivo Feminista Comunha e da Frente Feminista de São Carlos (SP) e administradora da página do Facebook "Campanha pela Divisão dos Trabalhos Domésticos".

"A sociedade precisa parar de ditar se a mulher deve ter filhos ou não, que roupas deve usar, quantos parceiros sexuais deve ter, qual profissão escolher, culpá-la por assédios sexuais e estupros, conferir a ela a obrigação exclusiva de cuidar da casa e dos filhos e tantas outras coisas baseadas no mito do que é 'ser mulher de verdade'. O que existe, no entanto, são formas idealizadas e preconceituosas de masculinidade e feminilidade, assim como papéis correspondentes a essa construção. Tudo o que é social e cultural pode mudar e, nesse caso, tem de mudar". Monique Amaral, 23 anos, linguista, militante do Coletivo Feminista Comunha e da Frente Feminista de São Carlos (SP) e administradora da página do Facebook "Campanha pela Divisão dos Trabalhos Domésticos".

"Historicamente, são inegáveis as mudanças relativas à conquista de direitos femininos e do papel das mulheres em nossa sociedade. Importante lembrar que grande parte delas foram possíveis pelas lutas dos mais diversos feminismos. No entanto, embora noções e papéis ligados às mulheres tenham mudado ao longo do tempo, alguns sentidos pejorativos e desqualificadores de feminilidades se reatualizam, por exemplo no mercado de trabalho, ou ainda no campo de combate as violências. É importante lembrar que as reflexões feministas contemporâneas além de problematizarem questões de gênero, também têm contribuído muito para desconstruir a naturalização de outras formas socioculturais que possam vir a significar desigualdades, tais como relações raciais ou relativas a cor da pele, classe social, nacionalidade, geração". Carolina Branco de Castro Ferreira, 34 anos, doutora em Ciências Sociais e pesquisadora colaboradora no Núcleo de Estudos de Gênero PAGU/Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) .

"Estamos em 2014 e o deputado antiaborto Assis do Couto, do PT, é eleito presidente da CDHM (Comissão de Direitos Humanos da Câmara), mostrando que o estado brasileiro não coloca os direitos da mulher como direitos humanos. Outro motivo de preocupação é que no site 'Cantada de Rua' já temos mais de mil relatos que mostram que o corpo da mulher é um objeto público, e que o assédio disfarçado de elogio continua sendo visto como normal". Fabiola Ladeira, 29 anos, diretora de projetos feministas da LiHS (Liga Humanista Secular do Brasil) e uma das organizadoras do site www.cantadaderua.com.br.

"Com todas as mudanças que têm ocorrido na sociedade, em função de muitos fatores e, especialmente, das lutas feministas das últimas décadas do século 20, uma das práticas que precisa urgentemente ser mudada/superada é a da violência contra as mulheres, cujas estatísticas continuam nos assombrando". Mara Coelho de Souza Lago, 73 anos, professora titular aposentada, membro da coordenação do IEG (Instituto de Estudos de Gênero) e da Revista Estudos Feministas da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Fonte: mulher.uol
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