A arca da discórdia

Em meio a um dilúvio de polêmicas, o filme "Noé" é alvo de acusações de religiosos americanos, sofre proibição nos países árabes e obriga o seu astro Russell Crowe a defendê-lo até diante do Papa Francisco. Russell Crowe aceitou o papel pela ousadia do projeto. Segundo o ator, o personagem não era benevolente como pode aparentar no texto bíblico e recebeu um temperamento intempestivo que não tem agradado aos fiéis. Em meio a um dilúvio de polêmicas, o filme "Noé" é alvo de acusações de religiosos americanos, sofre proibição nos países árabes e obriga o seu astro Russell Crowe a defendê-lo até diante do Papa Francisco.

Numa movimentação inédita, o astro Russell Crowe, que interpreta um dos mais conhecidos personagens bíblicos em “Noé”, inundou o Twitter do papa Francisco com mensagens insistentes. Ele convidava Sua Santidade para assistir à superprodução, sob o fogo cerrado de grande controvérsia, antes de sua estreia nos EUA na sexta-feira 28 (no Brasil, o longa de Darren Aronofsky chega às telas na quinta-feira seguinte). O papa não respondeu (pelo menos pela rede social) e também teria evitado um suposto encontro com Aronofsky, Crowe e o vice-presidente dos estúdios Paramount, Rob Moore, anunciado para a quarta-feira 19, no Vaticano – o ator foi visto apenas durante a missa e na audiência pública semanal. O objetivo da visita era preciso: conseguir a bênção para a obra malfalada e assim acalmar os ânimos do público católico que ameaça boicotar a aventura religiosa de US$ 130 milhões. Foi nesse crescendo de polêmica e insatisfação que Crowe teve a agenda repensada para colocar o sentido das águas do dilúvio a favor de sua “arca cinematográfica”, num périplo mundial que já passou pela Rússia e Itália e incluiu o Brasil

Como não se via desde “A Última Tentação de Cristo”, de Martin Scorsese, “Noé” tem provocado a reação de grupos religiosos cristãos, judeus e muçulmanos. Sob “fatwa” (condenação islâmica) no Egito, o longa já foi proibido nos Emirados Árabes, Catar, Kuwait e Bahrein. Nesse caso, não existe muita discussão: o islamismo não permite a representação de profetas e antepassados de Maomé, caso de Noé, retratado no “Alcorão”. Já a insatisfação dos protestantes, iniciada nos EUA, diz respeito a uma “traição” à “Bíblia” – o que, em se tratando das poucas linhas da história do patriarca no Velho Testamento, era um risco evidente. A saga do único homem justo, escolhido por Deus para preservar a vida na Terra durante o Grande Dilúvio, é contada em apenas quatro capítulos do Gênesis. Dessa forma, um filme que se proponha a narrá-la em 2h18 de duração (ele viveu 950 anos), só poderia lançar mão da fantasia, mesmo que embasada em rigorosa pesquisa.

Aronofsky sabia que tinha dois desafios: o técnico e o da fidelidade ao texto sagrado. O primeiro foi tirado de letra, com a “tecnologia necessária para realizar todos aqueles milagres”. Já o segundo, teria efeitos imprevisíveis. Educado na corrente ortodoxa do judaísmo, Aronofsky é fascinado pela narrativa do dilúvio desde a juventude. Escreveu uma graphic novel sobre o tema e acalentava o projeto havia 16 anos, com a ideia ambiciosa de centrar no arrependimento de Deus diante de sua criação. “Não é uma história de ninar, é a primeira narrativa do fim dos tempos”, disse. Além de expor a criação do mundo por meio do Big Bang, ele retrata a família de Noé como vegetariana e a Terra semelhante a um lugar devastado. Uma das cenas polêmicas é a da bebedeira de Noé, que se torna um viticultor após as águas baixarem – Crowe aparece nu. A passagem está na “Bíblia”, mas o temperamento irado do personagem incomodou os fiéis, especialmente depois que o astro assim o definiu: “Ele não é benevolente, muito menos agradável.” Ao ser interpelado por um dos filhos (“pensei que você foi escolhido porque era bom”), Noé responde: “Fui o eleito porque conseguiria fazer o trabalho.”


Construída durante seis meses num estacionamento em Long Island, Nova York, a arca de Noé (abaixo) foi concebida segundo as medidas exatas expostas na “Bíblia”, em cúbitos. Sua extensão seria de 152 metros, mas a réplica feita de estrutura de aço, piso de madeira e toras de espuma mede apenas 50 metros. O restante foi digitalizado, assim como o movimento dos animais, todos criados em escala real.

Crowe atiçou ainda mais as suspeitas ao afirmar que aceitou o papel pela ousadia da abordagem. Foi o suficiente para gerar o burburinho que vem aumentando em decibéis. Temendo colocar em risco o investimento, a Paramount testou outras versões do filme, mais palatáveis ao público religioso (teriam sido ao todo 12), e bateu boca com veículos especializados como “Variety”, que divulgou uma pesquisa que apontava a rejeição da audiência. A contragosto de Aronofsky, nos EUA o estúdio prometeu usar uma advertência dizendo que o enredo tem licenças artísticas e que a história de Noé está na “Bíblia”. Para aumentar a polêmica, a atriz Emma Watson, que faz uma menina adotada por Noé, se intoxicou ao beber água em mau estado – Aronofsky não permitiu o uso de garrafas pet nas filmagens, tomado pela abordagem ambientalista que imprimiu. Em meio a tanta controvérsia, ao ser perguntado qual Noé representa no filme, Russell Crowe respondeu com humor: “O Noé molhado.”


CLÃ

Anthony Hopkins no papel de Matusalém, avô de Noé, e Gavin Gasaleno, como Shem: eleitos



Fonte: Isto é
Por Ivan Claudio (ivanclaudio@istoe.com.br)

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