3 de jun de 2013


Em tempos de revoluções, Recife tornou-se mais feminina e foi palco de crescente liberação sexual no século XIX

Marcus J. M. de Carvalho


A primeira metade do século XIX, no Nordeste, é a época da Insurreição Pernambucana (1817), da Confederação do Equador (1824) e da Insurreição Praieira (1848). Nas ruas ouviam-se as palavras de ordem do Iluminismo, as chamadas “ideias francesas”, tais como República e Constituição. Louvava-se a liberdade que, tal como hoje em dia, tinha múltiplos significados.


Mas, e as mulheres? E as alcovas? Será que aquelas ideias ficaram apenas no terreno da política?


Embora não tenha havido nenhuma revolução sexual paralela às chamadas “revoluções liberais”, muita coisa também mudaria nos costumes íntimos das cidades brasileiras. A população livre dos bairros centrais do Recife praticamente dobrou entre a Independência e 1850, principalmente devido à vinda de gente do interior imediato, área de engenhos decadentes, paulatinamente engolidos pela cidade. 

Muitos desses novos habitantes eram mulheres livres e libertas. Nos censos de 1828 e 1855, elas eram a maioria absoluta nos bairros centrais do Recife. A dinâmica da vida urbana atraía a população feminina, pois a cidade era percebida como o lugar da liberdade e do progresso. Lá havia mais oportunidades de trabalho e de vivências mais significativas do que na Zona da Mata submetida às duras regras não escritas do patriarcado rural.

Sintoma de uma possível maior licenciosidade é o número de nascimentos fora dos laços matrimoniais registrados nas igrejas do Recife. Nos bairros centrais da cidade (Recife, Santo Antônio, São José e Boa Vista), 46% das crianças batizadas em 1838 eram filhos ilegítimos. Já nas freguesias açucareiras de Jaboatão, Ipojuca, Cabo e Goiana, eram apenas 25%. 

Para manter esses filhos, era inevitável procurar emprego. Muitas casas eram verdadeiras indústrias, oferecendo nos jornais serviços variados que o mercado de trabalho reservava às mulheres, tais como ensinar as primeiras letras, fabricar doces e costurar roupas. As damas do Recife vestiam-se à francesa. 

As mais ricas com vestidos confeccionados em Paris, enquanto as demais copiavam os padrões das revistas francesas de moda. Nos anos 1840, havia francesas oferecendo-se nos jornais para ensinar a língua, tocar piano, dançar e costurar de acordo com o figurino de sua terra. Mas havia também brasileiras que sabiam costurar e buscavam emprego em loja “francesa”.



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