20 de fev de 2013



Por Miguel Rios


Quando se é menino branco se começa a ser racista por osmose. Pelo ar. Uma insinuação dali, uma cara feia de lá, uma piadinha mais na frente, uma forma de tratar diferenciada, uma frase discriminatória acolá. Vai impregnando. O que os adultos brancos fazem é visto como exemplo. O certo fazer: a detestável consciência branca.

Quando se é menino branco não se tem ideia de como ela é desumana. Até cisma que é, mas o entorno te impõe a certeza de que não é, de que é tipo a lei natural, meio que arranjo do ecossistema, da vitória do mais forte, de que existe raça alfa. 

Quando se é menino branco o bombardeio é cruel e insistente. Poucos dizem na lata “negro é gentinha”, mas muitos te obrigam a absorver por gestos, olhares e frases adaptadas, amaciadas. Você deve acreditar. Sem mais. E pronto. E ponto.

Quando se foi menino branco, de olhos e cabelos claros, se ouvia direto “Como você é bonito”, enquanto o colega negro do lado ficava sem elogio algum. A vaidade, comparsa do preconceito, crescia e ajudava a sedimentar.

Quando se foi menino branco se presenciava as auxiliares domésticas serem as novas mucamas, com um agradinho financeiro no final do mês, e as queixas das patroas de que elas queriam cada vez mais e demais, acompanhadas da preocupante e curinga dúvida: “Aonde vamos parar desse jeito?”.

Quando se foi menino branco se assistiu a um super-herói negro aparecer no desenho animado e, de pronto, veio o aviso: “Tá aí para fazer média com a negada”. Uma versão mais polida da pedrada que veio a seguir: “Eita! Já sujaram a Liga da Justiça”. E você, que nem se deu conta a princípio, passou a achar Vulcão Negro um deslocado em qualquer combate contra a Legião do Mal.

E, ao voltar bronzeado da praia, se recebia o lamento da tia: “Que pena. Era tão alvinho”. E se escutava comentários como “um pé na cozinha” sobre quem tinha pele entre claro e escuro, “de alma branca” se era um que se comportava dentro dos padrões alvejantes, “moreno” para aliviar e ser “politicamente correto”.

E te mandavam ficar longe de tudo relativo a negros, pois é tudo sem qualidade, indecente, denigre. Como aconteceu com o samba no início do século 20, como é com o funk hoje em dia, como foi e como é com o candomblé. 

E se via na novela que negro casa com negra; branco, com branca. Que ator negro era para papel de escravo ou empregado. Que ator branco, para viver o senhor de engenho ou o patrão. Que basta tratar os negros que nem os mocinhos da tele-história, com “humanidade”, não metendo o chicote e agradecendo o copo servido na bandeja, que tudo fica bem. Que a sociedade é assim, que está bem assim. Racista ruim é o feitor que açoita. Racista legal é o que não bate, o que sorri e cumprimenta, mas não se mistura.

Quando se é menino branco se vê negros por baixo, brancos por cima. Aí se estranha um professor negro entrando para te ensinar matemática, quando a ele apenas cabia era o chão para varrer. E se concebe a estranheza não como racismo, talvez tipo uma falha na matrix.

Quando se é menino branco impregnado, racistas na real foram os escravocratas. Se é um racismo afável, que não insulta na frente, é tolerável. Os negros que superem e se virem. Tipo um ódio piedoso, do “trate bem, conviva, mas sem se envolver, sem dar liberdade”. Bondade das piores.

Quando se é menino branco se é um reflexo do distorcido. Doutrinado no pinga-pinga, a marteladas. Envenenamento lento e eficaz. Quando você percebe, se espelhou, reproduziu, na maior naturalidade.

Quando se vira um cara branco duro é lavar a lama racista da alma. É esfregar e esfregar sem descanso. 
Tem de haver um mea-culpa. Tem de haver um despir e um começar de novo. Tem de se livrar das aulas subliminares de que o branco é superior, vencedor, o eleito divino. 

Precisa se misturar, se informar, quebrar inverdades, recusar o sistema, deixar de crer que a abolição foi um ato de caridade. Precisa adquirir consciência negra.

Ruindades e preconceitos teimam em ficar, nódoas de caju, seculares que são. Paciência e esforço, vigor e vigília para vencer a resistência, para derrubar o sinal de alerta que toca e te enche de suspeitas toda vez que garotos negros sem camisa cruzam o caminho, toda vez que se é contagiado por uma chacota contada às escondidas pelos incorretos da hora do cafezinho.

Sem autorização, sem aviso, a memória traz à tona o arquivo que se queria deletado. Arquivo de quando se foi menino impregnado, reaberto de supetão, tipo frieira não cuidada. Aí você joga o pano da vergonha em cima, manda o bicho para o esgoto, antes que cresça, vire hidra, que procrie.

Caso procrie, começam a brotar as crenças de que a escravatura é mal sanado, que racismo nem mais existe. Que se existe vem do próprio negro que persiste em se mostrar negro, injustiçado e credor de uma dívida de longa data. Que ele devia parar de falar sobre isso. 

Bem mais fácil defender que todos estão em patamares idênticos, que brancos não usaram negros como escada para enriquecer nem se projetar tanto assim, que não os jogaram no submundo e que um mero pedido de desculpas abafa o caso.

Bem mais fácil defender que tudo ficou para trás, que agora é tudo na boa, na paz, como na máxima de Odorico Paraguçu de que “vamos esquecer o pratrasmente e pensar no prafrentemente”. Bem mais cômodo alegar que não vence na vida quem não quer, que a área de serviço, a favela e a universidade têm acesso igual a todos.

Bem mais cômodo crer que se um negro chegou a presidente do Supremo Tribunal Federal é por as portas estarem abertas e não por ele ser uma linda exceção, mas que só confirma a regra. 

Por ele ser o novo conforto dos brancos cínicos, que desvirtuam a conquista e a usam como mais uma desculpa para gritar: “Tão vendo aí? Não há racismo”. Mas se resolverem contabilizar: “Temos fulano em destaque aqui, sicrano lá, beltrano neste lugar e... quem mais mesmo?”


(Autor desconhecido)

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