25 de dez de 2012

 

Das traquinagens em São Borja à formação militar e anticlerical: os fatos que marcaram a vida e definiriam a trajetória do político que mais tempo passou à frente da Presidência da República do Brasil


Texto Cláudia de Castro Lima

Naquela tarde de verão de 1896, na fazenda Itu, a 30 km de São Borja, no Rio Grande do Sul, o coronel Manuel Vargas tomava chimarrão com um grupo de estancieiros para tratar de negócios e política.
 
Um estrondo vindo de dentro da casa fez com que o bravo veterano da Guerra do Paraguai interrompesse a reunião e entrasse em casa para ver o que ocorrera.
 
Era a pintura a óleo de Julio de Castilhos, considerado um herói e um mito naquela casa republicana por ter, 7 anos antes, conspirado a favor da proclamação da República brasileira, que se espatifara no chão.
 
Manuel Vargas não teve dúvida: aquilo era obra do terceiro de seus quatro filhos então, Getúlio Dornelles Vargas.

Getulinho, mirrado e pequeno aos 14 anos (pequeno, aliás, continuaria a vida toda: só chegou a 1,57 m de altura), apavorado com o acidente que causou ao mostrar o guarda-chuva do pai ao amigo, fugiu da sala e subiu em um umbuzeiro ao lado da casa.
 
Ficou ali, vendo o pai colérico ordenar que peões dessem uma busca na fazenda. Só desceu na manhã seguinte, quando a raiva paterna tinha virado aflição - ele e a mulher, dona Candoca, haviam passado a noite em claro, desesperados com o sumiço.
 
Getúlio escapou do castigo e levou do episódio uma lição: o melhor a fazer é esperar, resistir, usar o tempo como aliado até que tudo esteja a seu favor. E então descer do umbuzeiro.


A lição do umbuzeiro é uma das histórias da infância do homem que por mais tempo comandou a República brasileira: 18 anos, somados os dois períodos no Palácio do Catete.
 
Ela está em Getúlio, o primeiro de 3 volumes dedicados à vida do sujeito que dizia ser contra biografias, de autoria do jornalista e escritor Lira Neto e que será lançado este mês.
 
O jornalista leu dezenas de livros e teses sobre Getúlio e pesquisou em fontes primárias (processos judiciais, despachos diplomáticos, folhetos, charges e até suvenires) para traçar um retrato surpreendente do político que entrou para a história do país ao comandar a Revolução de 1930.

"É possível antever em sua infância e juventude uma série de características que condicionaram Getúlio a tomar atitudes como político", afirma Lira.
 
"O poder unipessoal, por exemplo, era natural para ele, que viu Borges de Medeiros (líder do Partido Republicano Rio-Grandense, ao qual a família Vargas era filiada) ficar 25 anos no poder do Rio Grande do Sul.
 
Getúlio herdou desde cedo tal germe autoritário. Ao mesmo tempo, é cheio de contradições, como ser um ditador que também foi o primeiro político de massas do país.

Em São Borja, Getúlio gostava de brincar de guerra, reproduzindo as aventuras militares do pai, que tinha de ficar repetindo histórias das batalhas para o menino. Também construía armadilhas para animais e aprendeu, garoto, a carnear boi.
 
Apesar das peraltices, foi uma criança com saúde delicada.
  •  Aos 2 anos, quase morreu ao tomar alguns goles de querosene. Aos 7, teve graves acessos de febre.
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  • "Cresceu uma criança calada, dada a longos silêncios, trancafiado em seu próprio mundo, ao qual poucos tinham acesso", escreve Lira em Getúlio.
  •  "Preferia ouvir a falar. Quando provocado, respondia de forma evasiva, quase arisca."



Essa reserva é traço característico de sua personalidade futura: Getúlio desenvolveu um jeito bonachão, escondendo-se atrás do sorriso, uma espécie de escudo para os que se arriscavam a desvendá-lo. "Tinha uma grande capacidade de postergar problemas", afirma Lira.
 
"Ele repetia muito a frase: `Deixa como está para ver como é que fica¿." Foi assim que agiu por vários meses, anos depois do episódio do umbuzeiro, em 1930. Ficou em cima da árvore até ter certeza de que o cenário era propício para tomar uma atitude: decidir liderar a revolução que o levou ao poder.
 
A paixão pelas brincadeiras militares fez com que Getúlio decidisse entrar para o Exército. Em 1898, alistou-se como soldado raso em São Borja. Em 1900, pouco antes de completar 18 anos, ingressou na Escola Preparatória e de Tática de Rio Pardo. Para se adequar à idade exigida pela arma, rasurou a certidão de nascimento - consta nos documentos da escola que ele nasceu em 1883, e não 1882. Foi um aluno acima da média, que passava horas absorto em leitura, mas, ao colocar-se ao lado de cadetes que haviam brigado com um capitão, acabou expulso do colégio. Desapontado, decidiu trocar a farda pela Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre.
 
"Aos 21 anos, o jovem de São Borja começaria a experimentar duas paixões: a queda pelas mulheres e o ardor indisfarçado pela política", escreveu Lira. Getúlio começou a discursar em atos oficiais - representava os estudantes de direito em seu primeiro grande discurso, no Theatro São Pedro, no velório de Julio de Castilhos (o mesmo do quadro quebrado na infância).
 
Na faculdade, apaixonou-se por uma jovem a quem chamava de Dama de Vermelho, "estranha e deslumbrante beleza feminina", conforme descreveu. Lira descobriu o nome dela: Alzira Prestes. Tudo indica que o caso não passou de amor platônico: a moça casou-se com um telegrafista. Outras musas povoaram o coração do rapaz, que as tratava por codinomes. As cartas tinham menções à "filha do general" ou à "beleza aduaneira".
 
O que Lira descobriu, com base numa carta enviada a Getúlio por um amigo, foi que o futuro presidente não encontrou o amor no casamento: "Nenhum de nós se casou com a mulher que pensava amar".
 
Na faculdade, Getúlio começou a apreciar charutos, hábito que se tornaria sua marca particular. Ele chegou a fumar 8 por dia, em especial os das marcas Mil e Uma Noites e Soberano.
 
Na formatura, como orador, fez um discurso que, por sua vontade e da família, não entraria para a História, mas que o autor da trilogia descobriu e publicou.
 
Era um libelo contra o cristianismo: "a moral cristã é contra a natureza humana", "o cristianismo é inimigo da civilização", um retrocesso em relação "às grandes conquistas progressivas da humanidade".
 
O cristianismo, para Getúlio, "desnatura a grandeza da sexualidade, a união dos seres numa transfusão do magnetismo amoroso, considerado um comércio impuro".
 
O texto era reflexo de suas posições anticlericais, associadas ao positivismo, em voga na época.
 
 
 




 
 
"Mais tarde, não interessaria a Getúlio divulgar o ideário que professara na mocidade", diz Lira. "Em um país católico, aquelas palavras permaneceriam convenientemente omitidas da opinião pública por decisão expressa do autor."
 
 
Segundo Lira, o discurso estava nos arquivos da Fundação Getúlio Vargas, com um bilhete da filha do político, Alzira, pedindo que não fosse publicado.
 
O autor ficou em uma encruzilhada, entre o pedido dela e a importância histórica do documento. Venceu a segunda opção. Getúlio tornou-se, mais tarde, cristão de ocasião.
 
Seu casamento com Darcy, em 1911, foi só no cartório. "A publicação do discurso é importante para compreender como Getúlio precisou moldar seu pensamento", diz Lira.
 
"Quando chegou à presidência, radicalizou a ponto de fazer da Igreja sua aliada."
 
Em 1934, Getúlio e Darcy casaram-se no religioso, numa cerimônia discreta, sem a presença dos filhos.
 
No começo de seu governo, em 1931, a estátua do Cristo Redentor foi inaugurada e Nossa Senhora Aparecida virou padroeira do Brasil
Getúlio e amigos da faculdade fundaram, em 1907, o Bloco Acadêmico Castilhista. Começava aí sua participação na política como pica-pau (em oposição aos maragatos, federalistas).
 
Aos 25 anos, foi eleito deputado estadual, com o aval de Borges de Medeiros, presidente (governador) do Rio Grande do Sul.
 
"Getúlio foi ocupando o papel de líder natural entre os colegas", afirma Lira. Nessa época, chegou a defender em plenário que a divisão do Estado em 3 poderes independentes não passava de "um velho princípio metafísico", que precisava ser superado.
 
"A palavra ditadura, pelo viés do castilhismo-borgismo, não tinha valor negativo. Era sinônimo de hierarquia e disciplina partidária."Em 1922, virou deputado federal. No Brasil, era a época da "política do café com leite", em que se revezavam na presidência políticos de São Paulo e de Minas Gerais.
 
Algumas insurreições, as revoltas tenentistas, começaram a ocorrer no país. Os revoltosos pregavam a modernização e a moralização dos costumes políticos e apoiavam a revolução como forma de promover uma mudança efetiva. Getúlio era contra os rebeldes.
 



 
Getúlio, o galanteador

 

Mesmo depois de casado, Getúlio não abandonou seu lado sedutor. Na época de deputado federal, dava suas escapadas em Porto Alegre.

"Sabia-se que era frequentador assíduo do célebre Clube dos Caçadores (também chamado Centro dos Caçadores) - casa de diversões masculinas que, de clube, tinha só o nome e, de caçadores, a metáfora", afirma Lira Neto em Getúlio.

O local era um cabaré e um cassino, que oferecia mesas de carteado, roletas e espetáculos musicais. "As beldades que costumavam borboletear pelos salões do lugar, fossem paraguaias, argentinas ou uruguaias, eram chamadas de francesas."

Mais tarde, como líder do governo provisório, as puladas de cerca não cessaram. "Getúlio sempre teve encontros com outras mulheres. Seu gosto pelo teatro de revista tinha muito a ver com a atração que sentia pelas vedetes, a ponto de a mais famosa dentre elas, Virgínia Lane, querer se atribuir a glória de ser a amada de Getúlio", diz Boris Fausto em Getúlio Vargas.

Virgínia, em entrevista a AVENTURAS NA HISTÓRIA, em 2007, disse que o romance durou quase 15 anos:

"Eu entrava e saía do Catete pela porta da frente!"

Segundo Fausto, nos meses que antecederam o Estado Novo, Getúlio viveu momentos de pura paixão. Anotou em seu diário que conhecera Aimée Simões Lopes, "companhia alegre e inteligente". O caso durou pouco mais de um ano.

Em 1938, já sem Aimée, escreveu sobre ela: "E assim passou-se, para mim, o ano, tendo uma ponta de amargura por alguma coisa longínqua, que era a minha fina razão de viver".

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