23 de nov de 2012




 

Até o século 19, ou se era criança ou adulto. A vida urbana e a rebeldia juvenil moldaram o que seria conhecido como adolescência - uma fase cuja trilha sonora foi o rock and roll, e o uniforme, jeans e camiseta

 


Houve uma época, e não era há tanto tempo assim, em que não havia adolescentes. As crianças eram vestidas de forma engraçadinha, como marinheiros, escoteiros ou o que estivesse na moda. Então chegava o dia, entre os 10 e 14 anos, em que abandonavam as calças curtas. A partir daí se esperava que seu comportamento imitasse em tudo o dos adultos - o mesmo jeito de se vestir e falar, os mesmos gostos e obrigações, inclusive a de trabalhar.


A adolescência não deve ser confundida com puberdade. Puberdade é o processo fisiológico de transformação do corpo infantil em adulto, que ocorre em algum momento durante a adolescência, por meio da liberação dos hormônios sexuais - é o mesmo processo em todos os povos e desde a Idade da Pedra, ainda que, por motivos não muito claros, ela acontecesse mais tarde antigamente. Até o século 19, a idade da primeira menstruação ficava entre os 15 e 17 anos - hoje ocorre entre 11 e 13 anos. Já a adolescência é uma construção social, a ideia que exista uma fase transitória na vida, em que não se é nem adulto nem criança.

 
Se o desenvolvimento biológico do corpo humano é o mesmo desde que saímos da savana africana, a ideia de que haja uma fase de transição, em que não somos nem crianças nem adultos, é uma invenção recente. A maioria dos povos tinha uma idade específica para considerar alguém adulto - isso sobrevive em festas de debutantes, no bar mitzvah dos judeus e na crisma dos católicos. E mesmo na lei, que dá uma data arbitrária para a maioridade. A palavra "adolescente" foi cunhada em 1898, pelo psiquiatra americano Granville Stanley Hall, e passou a ser usada apenas entre psicólogos.




O termo só se tornou popular depois da Segunda Guerra, pela mesma época em que nascia o rock and roll, a primeira revolução cultural que só afetava os jovens: o rock era a música que eles ouviam, mas os adultos desprezavam - assim como o estilo de se vestir e o comportamento, que vinham atrelados. Só então nasceu a juventude como conhecemos hoje.


Se o rock foi o "detonador", o barril de pólvora da juventude já vinha sendo carregado por mais de um século. De um lado, havia a idealização da juventude nascida no romantismo, que prezava os sentimentos intensos, a energia natural e a falta de compromisso dessa fase da vida. Do outro, um pânico legítimo. Ao final do século 19 e começo do 20, a urbanização, a explosão demográfica e as condições precárias das classes trabalhadoras levaram à formação de gangues em grandes cidades, como os hooligans de Londres e os apaches de Paris. 


Essas gangues tinham um estilo próprio de se vestir e incluíam moças, sexualmente liberadas, ainda que dominadas pelos homens. Mas seu estilo de vida era inaceitável: a principal atividade era o crime, o que incluía extorsões, guerras de gangue e assassinatos sob encomenda. "Esse era um mundo inteiro em si mesmo. Todas as regras usuais eram viradas de cabeça para baixo", afirma o jornalista britânico Jon Savage em seu livro A Criação da Juventude.

 
A juventude era um problema e a solução foi enquadrá-la. No século 19, surgiam as primeiras leis de ensino obrigatório, a princípio só para o primário. Enquanto isso, nacionalistas começaram a pregar pela militarização do jovem de forma a disciplinar sua energia. Assim, em 1908, o tenente veterano inglês Robert Baden-Powell lançava seu livro Scouting for Boys, a base do escotismo. Powell vinha de uma longa carreira em guerras coloniais inglesas, nas quais havia usado adolescentes como mensageiros e para auxiliar soldados feridos. 


Scout em inglês quer dizer reconhecimento - e as atividades propostas por Powell eram apenas uma adaptação do treinamento militar de reconhecimento. O movimento criaria imitadores pelo mundo todo, até em países socialistas e no nazismo - o mais infame deles, a Juventude Hitlerista, era obrigatória para os meninos a partir de 10 anos e misturava treinamento de escoteiro com doutrinação racista. 



 Os nazistas até proibiram os escoteiros regulares para evitar concorrência.


Geração silenciosa
 Calça jeans e camiseta
 De geração em geração







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