19 de nov de 2012


Uma das maiores autoridades no estudo das religiões afro no País, Reginaldo Prandi, autor do livro “Mitologia dos orixás”, explica a raiz histórica dos preconceitos contra a umbanda e o candomblé e alerta: há um projeto de aniquilação das tradições religiosas africanas no Brasil. E elas correm risco de serem extintas.

Confira alguns trechos da entrevista:

Como o senhor interpreta a imagem do candomblé na sociedade hoje?

O candomblé tem grande visibilidade no turismo, especialmente na Bahia e sua presença na música popular brasileira e em obras de artistas como Dorival Caymmi e Jorge Amado é muito grande. Mas também tem um aspecto cultural negativo de grande popularidade.

Qual é esse aspecto negativo?

É essa imagem de feitiço, coisa mal-feita e a relação com o diabo, que faz parte do imaginário. Quando as pessoas se referem a algo muito ruim, usam as palavras macumba, despacho, feitiço. É uma realidade superficial e distante da realidade mítica e ritualística de um terreiro.

Por que acontecem tantas disputas religiosas?

Toda religião é uma fonte de verdade e fica muito centrada em si mesma. Se você tem a sua verdade, a do outro está errada. Isso vale de católicos para evangélicos, de evangélicos para afro e até dentro do próprio candomblé. Além disso, algumas religiões tornam a conversão como parte da missão religiosa. Para ser um bom religioso, você tem que trazer para o seu credo e a sua verdade os outros credos que estariam todos errados. Religião é uma disputa, por isso há tantas guerras em nome da religião.

Mas algumas religiões são mais tolerantes do que outras…

O candomblé, por exemplo, é religião politeísta (que tem um panteão com vários deuses), como a grega e romana. Não há falta de mérito nisso. Existe a idéia de Deus supremo, criador, mas na maioria dos eventos do dia-a-dia, ele não interfere. Quem cuida do emprego é Xangô, da fertilidade, Oxum, e sucessivamente. As religiões politeístas têm facilidade de assimilar deuses estrangeiros e os trata em posição de igualdade. 

Embora seja extremamente próprio de cada religião defender a sua verdade como a única e combater a fé alheia, gerando uma grande possibilidade de conflitos e perseguições, o candomblé tem outra prática de aceitar o outro com mais facilidade. Prova disso é o sincretismo. Oxalá, por exemplo, foi sincretizado com Jesus Cristo.

Como o senhor vê o avanço da intolerância religiosa no Brasil?

Como cada denominação das religiões evangélicas se vê como grande verdade levada aos outros pela conversão, o proselitismo é muito grande. A tolerância não faz parte do universo deles. O alvo preferencial são os afro-brasileiros. Os católicos também são alvo, mas não se pode dizer que são demoníacos porque são igualmente cristãos. Já o afro pensa que a religião de todo mundo tem algo bom e interessante.

Qual sua visão sobre o futuro desses conflitos religiosos?

Mais de 90% do avanço pentecostal se faz em cima da religião católica e pequena parte em cima dos afro. Mas como são pequenininhos, o pouco que lhes é tirado representa muito. A umbanda está diminuindo de tamanho. Há favelas em que os terreiros foram extirpados. Uma quadrilha também pode se associar a um pastor e fechar todos os terreiros.

O Brasil faz de conta que não está vendo. Isso se agrava porque o presidente da República tem relações de simpatia com algumas das igrejas mais agressivas. A umbanda e candomblé não são um parceiro político interessante. Quando entra nessa história é vítima. Já faz 20 anos que a umbanda vem diminuindo e cada vez mais por perseguição evangélica. Se esse processo não é estancado, o que vai acontecer?

Um dos maiores problemas enfrentados pelas comunidades de candomblé para sobreviver é a descentralização. Muitas vezes, há divergências sobre o culto e os rituais dentro das próprias nações. Já que as tradições afro, como diz Prandi, não são uma religião só, mas vários cultos, oriundos de diversos povos africanos, que foram trazidos para o Brasil. Confira a segunda parte da entrevista com o pesquisador Reginaldo Prandi:

Às vezes, existem divergências dentro do próprio candomblé…

Você não tem uma religião afro-brasileira, mas várias. Dentro de cada uma, há grande diversidade de nações e ritos diferentes, de acordo com as origens étnicas dos grupos fundadores. Dentro da religião, há grupos que conhecem muito pouco os outros.

A falta de união entre as comunidades gera uma dificuldade de se articular politicamente. Qual a raiz histórica dessa descentralização?

Os terreiros não se unem nem se organizam, o que gera uma fraqueza para se defender. A religião afro tem origem no culto doméstico. As relações são sempre simbolizadas pelo parentesco. Existe o pai-de-santo, filho-de-santo, a casa-de-santo, como se fosse família. Então, ainda segue essa ideia de que cada chefe de família é responsável pela sua família. Não implica responsabilidade com o outro. Cada comunidade é totalmente autônoma.

Como surgiu o candomblé no Brasil?

No século 19, quando os negros já vivem nas grandes cidades litorâneas e trabalham em serviços urbanos, como escravos de ganho, ganhando mobilidade. Na senzala e no campo, eles viviam totalmente isolados, não tinham contato com os escravos de outra fazenda, eram segregados. Nas cidades, passam a fazer os serviços manuais, porque os brancos não trabalhavam. Um dia por semana, o dinheiro de seu trabalho era para seu sustento, nos outros dias, ia para o senhor. Com isso, os escravos começam a se sustentar e morar em bairros negros.

Qual a primeira casa de candomblé?

A que resistiu e perdurou até hoje, conhecida na nação ketu é a Casa Branca do Engenho velho, na primeira metade do século 19. Dali saiu o Gantois, fundado por Maria Julia da Conceição. É comum até hoje, quando a mãe-de-santo morre, quem perde a indicação para a sucessão do terreiro sair e fundar outra casa. Foi assim que a turma de Mãe Aninha e outras figuras importantes fundaram o Axé Òpó Àfonjá. A casa principal foi erguida em 1910. Há quem afirme que o a casa de Mãe Aninha do Rio seja mais antiga do que a da Bahia.

Onde o candomblé começou a se formar?

Em reuniões religiosas que aconteciam dentro da Igreja da Barroquinha. Um incêndio na igreja destruiu a documentação sobre a época. As igrejas são valiosos acervos históricos pois tudo que acontecia era documentado pelos religiosos. A preocupação com esse patrimônio, assim como o arquitetônico, é recente no Brasil. O país teve um ministro que mandou queimar os arquivos da escravidão para “apagar essa mancha histórica brasileira”, que foi Ruy Barbosa, considerado um gênio. Imaginava-se isso, que se apagava o passado, apagando-se a memória. Ainda bem que tiveram preguiça até de fazer isso e pouco foi perdido.

A demonização de figuras do candomblé, especialmente de Exu, já se tornou um traço marcante da sociedade brasileira. Essa idéia foi construída desde a chegada do colonizador português à África. Veja a terceira parte da entrevista com o pesquisador Reginaldo Prandi:

Por que a figura de Exu foi demonizada no Brasil?

A demonização começa na África com a chegadas dos europeus. O Exu já na África sofre grande sincretismo. Como é o orixá mensageiro do panteão foi sincretizado com outra entidade Elegbara, o mensageiro do panteão dos povos fon, que deram origem ao Jeje brasileiro. Elegbara é o deus com funções de reprodução. Logo, seu culto tem imagens fálico, falos eretos.

Todas as religiões panteístas têm divindades importantes ligadas à reprodução humana e à fertilidade do solo, a fartura dos alimentos. Essas funções de Elegbara foram passadas para Exu.

E quando começa a associação de Exu ao diabo católico?

Quando chegaram os primeiros colonizadores europeus aos territórios africanos, se depararam com o culto de orixás e voduns (divindades fons). Esses missionários cristãos tinham objetivos de “cristianizar o mundo selvagem”. Quando viram altares de forma fálica, atribuíram a algo demoníaco. O catolicismo é uma religião que aboliu a sexualidade do horizonte humano, de profunda repressão. Exu recebeu a pecha de diabo e não se livrou.

Qual a característica de Exu no candomblé?

No candomblé, não há idéia de bem e mal como coisa inconciliável. Quem faz essa oposição é o mundo cristão. Para o afro, o bem e mal são faces da mesma moeda e estão presentes em todas as coisas. O Exu deve ser pago pelo seu trabalho como todo deus mensageiro em qualquer tradição religiosa. Quando qualquer orixá é evocado, antes se evoca Exu, porque sem ele não há a comunicação com as divindades. ele antes em qualquer lugar, se Exu não participa não há comunicação.

Existiam outros deuses com essa função em outras 
culturas?

Lar, palavra que hoje significa domicílio, casa, é um antigo deus cultuado por povos da peninsula itálica. As pessoas tinham em casa altares com falos eretos. Eram tratados com profundo respeito porque a reprodução e a sexualidade são consideradas fontes da vida. Esse deus que protegia, presidia a sexualidade que permitia a reprodução e o fluxo de alimentos através da fertilidade da terra é responsável pela sobrevivência humana.

Há outros aspectos demonizados em Exu?

Para o mundo católico, Exu trabalhar por dinheiro é uma coisa horrível e própria do mal. O sincretismo foi juntando características entre os santos cristãos e os deuses afro. Iemanjá, a grande mãe por excelência, foi associada a Nossa Senhora. Oxalá a Jesus Cristo. E sucessivamente. Faltava um diabo entre os orixás e o candidato por excelência foi Exu.

Outras culturas que receberam povos afro procederam assim?

Em Cuba, o Exu é chamado de Eleguá, vem de Elegbara, e foi sincretizado com o Menino Jesus. Um sincretismo completamente oposto. Tanto que em Cuba muita gente é filha de Eleguá, enquanto no Brasil é raro ter filho de Exu. As pessoas morrem de medo de Exu. Muita gente que é filha de Ogum, na verdade, é filha de Exu. Em Cuba, a função da sexualidade é atribuída a Xangô que tem símbolos fálicos, como o taco de baseball. Xangô quando dança, fica com o taco nas pernas como se fosse falo ereto.

E a figura da pombagira?

A mentalidade católica acredita que a mulher é a grande pecadora, a fonte de pecado desde Eva. Tinha que associar um pouco a figura feminina a Exu. A pombagira acabou sendo a representação mais explícita da sexualidade proibida, perigosa e ao mesmo tempo muito desejada por todos. É uma grande construção cultural e ponto de conflito e perseguição na oposição das religiões evangélicas. São sempre figuras de bordel, associadas a vida desregrada.

A seguir, alguns dos relatos de como ocorre a intolerância no dia a dia:

“Eu estava praticamente me prostituindo, cheguei a levar drogas na mochila. Hoje, sou um novo homem. O candomblé é tudo na minha vida”. 

Nas memórias do jovem Carlos (nome fictício), de 20 anos, a adolescência é sinônimo de farras, promiscuidade e proximidade com o crime. Foi na religião que o rapaz conta ter encontrado equilíbrio. A escolha teve preço alto: a convivência com a família. Ao se iniciar, Carlos deixou o Complexo da Penha.

- Na Vila Cruzeiro, é uma gargalhada de pombagira e um tiro na cabeça. Roupas de santo, guias, tudo tem que ser muito escondido. Não posso morar lá – declara o jovem.

Os símbolos sagrados das religiões também são alvos da violência. Em junho, a depredação do centro umbandista Cruz de Oxalá, no Catete, causou comoção popular.

Quatro meses depois, a violência voltaria a se repetir. Dessa vez, a vítima foi Nádia Maria Correa Cursino, de 53 anos, a Mãe Nádia de Oyá.

Após 30 anos de vida religiosa, ela sentiu que estava na hora de abrir sua casa-de-santo. Alugou imóvel em Interlândia, Belford Roxo. O sonho durou apenas dois meses. Ao retornar de uma viagem, em outubro, foi até o terreiro. O cadeado havia sido trocado. Nádia só conseguiu entrar com a polícia. O cenário era desolador.

- Não sei dizer o que senti. Quebraram todos os meus santos, só ficaram meu Xangô, para que eu lutasse por Justiça, e a Iansã. Eram santos que estavam comigo a vida inteira. Tinha jóias de ouro em alguns assentamentos (esculturas e objetos sagrados reunidos em louvor aos orixás durante toda a vida religiosa). Nada foi devolvido. Eu chorei muito, muito – diz Nádia, que registrou o caso na 54 DP (Belford Roxo) e tem a primeira audiência marcada para março no Juizado Especial Criminal. Os agressores eram da família do proprietário.

- Não teria coragem de jogar uma Bíblia no lixo porque é sagrada para alguém. Onde nós vamos parar com essas agressões? – encerra.

De vítima da intolerância a palestrante no colégio. Ontem, o estudante Felipe Gonçalves Pereira, de 13 anos, foi recebido pelo secretário de Ciência e Tecnologia, Alexandre Cardoso. A melhor notícia dada pelo secretário ao menino será a realização de um seminário na Faetec para alunos e professores abordando assuntos como fé, cultura e tolerância religiosa.

- Será muito importante para que as pessoas aprendam e entendam a minha religião. Estou muito feliz e agora quero voltar à escola – diz Felipe, que cumpre os três meses de preceito do candomblé e foi discriminado ao mostrar um fio de conta escondido sob seu uniforme escolar.

Alexandre Cardoso também anunciou que serão instalados centros digitais em dez casas de santo. O objetivo é que os terreiros se tornem polos de produção de pesquisa sobre as religiões de matriz africana no Rio. O projeto foi discutido com o pedagogo Ivanir dos Santos, membro da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa. Para o secretário, a história de Felipe se tornou um símbolo da luta contra a discriminação.

- Todos devemos desculpas a Felipe. Mas ele será um exemplo da posição do governo contra a discriminação – encerra o secretário.

Eram 19h30m do dia 7 de maio de 2002. Dona Anita, de 75 anos, lembra que passava a novela na televisão. Dois homens armados – um deles com uma metralhadora – invadem o terreiro dirigido por seu filho, em Campo Grande. Encostam arma no rosto do pai-de-santo. A família pede pelo amor de Deus pela vida do religioso. Toca o telefone celular do agressor. O grupo interrompe a ação, vai embora e dá ultimato: a família deve se mudar em 24 horas.

A família vive até hoje em uma cidade do interior do país. Nunca mais voltou ao terreiro desde aquela noite. E nem ao Rio.

- É um dia muito triste, a gente quer esquecer. O carro estava do lado de fora para levar o corpo do meu filho – conta Dona Anita.

O motivo das ameaças e da invasão ao terreiro nunca foi esclarecido. Mas a briga do pai-de-santo com líderes de outras religiões na área – a resistência ao candomblé começava a se tornar forte em áreas da Zona Oeste – é vista como provável causa da intimidação.

- Foi um desespero, nem podemos pegar nossas coisas. Foram amigos que voltaram para recolher tudo – lamenta Dona Anita.

A dona-de-casa Dulcinéia dos Santos, de 45 anos, não foi ao casamento de dois de seus cinco filhos. Jamais conversa com as noras e só conseguiu pegar a neta no colo uma vez, porque a encontrou por acaso na rua. Tamanha indiferença não foi causada por nenhuma briga ou disputa familiar. A intolerância religiosa desatou todos os laços que uniam a mãe aos filhos. Candomblecista, ela se magoa ao lembrar que a mulher de seu filho a acusa de carregar “77 demônios” por pertencer à religião de matriz africana.

- Ela diz que se eu for à casa dela, deixarei um demônio lá. Se a menina ficar doente, a culpa é minha. São mentes atrasadas, eles repetem o que escutam na igreja deles. Criticam porque não conhecem. Nossa religião não é macumba nem feitiçaria. – afirma a dona-de-casa.

Dulcinéia se iniciou na religião, por amor ao filho mais jovem que ficou doente de forma repentina. Condenado pela medicina tradicional, o garoto ficou curado dentro de um barracão de candomblé. A conversão lhe custou os mais velhos.

- No Natal e no meu aniversário, não recebo nenhum telefonema. Às vezes, minha neta acena para mim da janela. 
Ela nem me reconhece como avó. Meu maior sonho é recuperar minha família – desabafa Dulcinéia.

Joana (nome fictício), 44 anos, também é mãe e sofre como Dulcinéia. Mas seu problema não é a distância da filha, de 11 anos. Mas o problema de saúde da menina, que sofre de síndrome do pânico desde que o pai a levou para uma cerimônia de exorcismo.

Na época do casamento, Joana tinha a mesma religião que o marido. Após a separação, um grupo de religiosos invadiu sua casa para “retirar o demônio”. Ela os expulsou. Mais tarde, tornou-se umbandista e sua filha passou a fazer parte de um grupo de evangelização de um centro kardecista. O pai decidiu “exorcizá-la”.

- Minha filha acorda gritando e tem pesadelos. Ela ficou traumatizada porque o grupo de religiosos gritava pelo “capeta” com as mãos na cabeça dela. Na época da separação, também disseram que eu estava endemoniada, mas eu não podia delatar, porque era da religião e não podia levar “irmão em juízo” – diz Joana.

A partir deste ano, denunciar crimes de intolerância, como o vivido pela família, ficará mais fácil. A secretaria especial de políticas de promoção da igualdade racial firma uma parceria com o Ministério da Justiça para criação de delegacias especializadas em intolerância religiosa e crimes étnico-raciais no País. O objetivo é potencializar a unidade de São Paulo, que já existe, e implementar ainda esse ano no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia.

Nas delegacias, trabalharão policiais especialmente treinados para identificar todo tipo de ofensa. E também psicólogos e assistentes sociais que possam ajudar nos casos. A secretaria trabalha na elaboração de uma lei específica sobre intolerância para apresentar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O objetivo é que ele apresente o projeto de lei no Congresso Nacional.

- O preconceito é pre-histórico, não coaduna com nosso tempo. É aberração, horror que um aluno sofra preconceito do professor na escola. Inquérito tem que seguir o curso, não pode ficar na gaveta – diz o secretário-adjunto do órgão Eloy Ferreira.

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